Crítica: Nu – Mike Leigh (1993)
- Equipe
- 2 de ago. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 24 de out. de 2019
"Johnny estupra uma mulher e foge, invadindo e mudando os rumos das vidas de várias pessoas que encontra. Thewlis vira carrasco, bálsamo, incitador, vítima, dependendo de quem cruza seu caminho." (Fonte)
Johnny nos é apresentado como um vagabundo mau caráter logo em sua primeira aparição, aos poucos nós vamos descobrindo que ele é extremamente inteligente e de um conhecimento vasto, “Passei em psicologia com a melhor nota!” ele chega a confessar em certo momento, mas nada a partir daí nos faz gostar mais dele e sim achá-lo um ser humano no mínimo interessante de ser estudado. Ele é irônico, sarcástico, de humor macabro, niilista ao extremo e crítico no sentido mais forte da palavra, ele é o carrasco da sociedade contemporânea que é consumista e nunca está satisfeita o bastante com tudo o que tem. O protagonista é um anjo/demônio ambulante onde sua tarefa é a investigação de espíritos, ele transita entre indivíduos explorando cada aspecto que lhe pareça interessante e depois o cospe. A atuação de David Thewlis nesse filme rendeu para ele o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes de 1993 e é realmente admirável seu trabalho nesse longa metragem.
“-Você já viu um cadáver?
– Só o meu...” - Johnny

As outras interpretações do filme são ótimas, destaque para o ótimo trabalho de Katrin Cartlidge que conseguiu imprimir com maestria todos os problemas psicológicos da Sophie, Greg Cruttwell que consegue ser o homem mais machista e nojento da face da terra, e com toda certeza vale mencionar Ewen Bremner que nos proporciona a cena mais hilária de todo filme.
O roteiro do filme é um espetáculo, ele foi elaborado através de semanas de improviso dos atores, a base dele continha apenas 25 páginas, um golpe de mestre de Leigh. Sem uma estrutura narrativa episódica com começo meio e fim, Naked é apenas um conto, um recorte da vida dessas personagens, começa no susto e termina abruptamente sem nos dar o mínimo de satisfação.
Os diálogos são muito bem construídos, David Thewlis surfa nas falas de Johnny e cada sibilo dele é como uma facada pronta pra ceifar toda a sua esperança de um final feliz. Johnny vomita e vomita palavras, sempre tendo a última fala, são muitas retrucadas e discussões inflamadas ao longo do filme, todas muito bem escritas. Esse filme contém uma das cenas mais bem escritas que eu já vi. A cena do vigilante noturno não é só incrivelmente bem elaborada no quesito texto como os temas nela discutidos fazem você simplesmente refletir sobre toda a sua vida e a vida dos que estão na tela até aquele ponto.

A fotografia do filme traz muitos tons azuis e acinzentados que realçam o aspecto sórdido, sombrio e imundo da Londres que é retratada no filme. O palco desse conto quase dostoievskiano tem muitos becos escuros e sujos. Um submundo londrino, quase um limbo, de almas perdidas vagando pelas ruas. Seus rostos são praticamente indetectáveis em contraste com as personagens que a trama apresenta, estes são retratados em muitas cenas que quase sempre os colocam no meio do plano. A câmera alterna entre tomadas externas, onde utiliza ângulos abertos para mostrar mais do que está em volta (a asquerosa cidade) e nas tomadas internas a câmera fica mais em close up nos rostos das personagens, focando nos diálogos e criando uma sensação de claustrofobia dentro dos ambientes. Há uma boa quantidade de panorâmicas e em uma em específico, fica indo e voltando, criando um quê de conflito mental de Johnny, são truques engenhosos de Leigh que sempre procura se comunicar através da câmera e dos seus planos bem pensados.
A montagem do filme passa quase despercebida, os cortes quase sempre passam despercebidos, dá a impressão de se estar assistindo um grande pesadelo sem fim. A música que acompanha o filme desde o início soa como um prelúdio invasivo do fim dos tempos, o fato de ser repetitiva não incomoda os ouvidos e traz uma sensação de que estamos caminhando sem rumo em direção ao nada, que é basicamente o tema do filme.

Naked emprega todos os mecanismos possíveis para nos passar um filme que causa sentimentos de mal estar desde sua primeira cena, nos faz pensar sobre como o ser humano pode ser desprezível, como o machismo é um problema real, sobre como estamos sempre muito perto do fim do mundo e sobre como nossa existência nele pode ser pífia. Naked nos pega pelo cabelo, nos desnuda e nos faz sentir o seu peso em nossas entranhas, na nossa pele e em cada centímetro de nosso ser. É sobre tudo e sobre o nada, é sobre o vazio, o fracasso, o sujo, a vida e a morte. É uma experiência moral, sensorial, psicológica e com toda certeza não é para os fracos.
Naked é um filme britânico dirigido por Mike Leigh e lançado em 1993.
Por: Gabriel Pinheiro
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