top of page

"O Jogo da Guerra" e o Cinema Anti-Guerra

  • Foto do escritor: Equipe
    Equipe
  • 25 de mai. de 2021
  • 6 min de leitura

As guerras são temas muito eficientes para o cinema. Através da lente de conflitos internacionais armados, podemos explorar temas importantes, como luto, divisões societárias, industrialização, geopolítica, economia, etc.

O tema de “guerra” sempre foi muito comum na história do cinema. O primeiro “filme de guerra” retratava a Guerra Hispano-Americana de 1898, “Enterro das Vítimas do USS Maine”, retratava o enterro de soldados mortos em uma batalha naval durante o conflito. O formato documental permitia que fosse retratado o conflito enquanto ocorria, junto com algumas dramatizações.


A modernização do cinema permitiu que se fugisse do olhar documental das Guerras para que se pudessem contassem histórias através da guerra: obras onde o conflito não seria o foco, mas o plano de fundo e contexto para as tramas.

Assim, passados os conflitos, há uma tendêcia para que se vejam os conflitos do passado com certos olhares, vestidos com políticas modernas. O olhar da história nunca é realmente objetivo quando se fala de arte, sempre existe uma intenção quando se decide contar alguma história ante um conflito armado do passado.


Francois Truffaut disse uma vez que “não existe filme anti-guerra”, em um dos dizeres mais aludidos quando o assunto é cinema de guerra. A ideia de que todo filme de guerra inevitavelmente recai sobre um conflito de “nós versus eles”, um lado bom contra um lado mau, é abertamente debatida até os dias de hoje, e discute um dos alicerces da arte cinematográfica em si.

A noção de que todo conflito exista apenas para exteriorizar um lado mostrado como “bom”, e outro lado mostrado como “mau” ou “injusto” é certamente ingênua e carece da nuance que deve ser aplicada ao se analisar qualquer conflito humano, armado ou não.


A distinção entre filmes “pró-guerra” e “anti-guerra” depende da figura do conflito em si, e como o conflito é retratado na tela.


Cinema Pró-Guerra

O cinema pró-guerra acontece quando algum filme retrata o conflito como um “mal necessário”. Pode haver questionamentos sobre a forma como o conflito ocorre, trazer questionamentos sobre a humanidade das pessoas que executam as ordens militares, mas no final, não se questiona a ideia de um conflito armado em si.


Há também a figura do patriotismo, um conflito defensivo, que irá proteger sua nação, ou um “ataque defensivo”, como forma de prevenir algum ataque à sua nação.

Os pontos de vista dos soldados, dos oficiais e generais são exaltados: todas as decisões são para aprofundar o conflito, salvar vidas ou alguma coisa crítica para “a missão”. Resgates, missões ultra secretas, operações clandestinas ou comandos difíceis são também temas recorrentes.


A ideologia militar é clara: equipamentos são mostrados com detalhes, táticas são discutidas e claramente expressadas para o público, com o máximo possível de jargões utilizados, correndo o risco de alienar a platéia. Muitas vezes, os próprios exércitos dão consultoria, desde que se respeitem limitações de roteiro (isso não é limitado a filmes de guerra – Capitã Marvel teve consultoria da Força Aérea Americana, e restrições de roteiro).


Por isso, o cunho ideológico do cinema pró-guerra acaba favorecendo ideais como o patriotismo, colonialismo, racismo e excepcionalismo.

Um bom exemplo é Dunkirk (2019, Christopher Nolan) – A história da retirada do exército britânico pelo canal de Dunquerque na Bélgica após uma campanha desastrosa conta o conflito através (na maioria do tempo) pelo ponto de vista dos jovens soldados, que devem lutar para sobreviver ao conflito e voltar para casa, em circunstâncias desumanas.


O militarismo é pouco sutil: Nolan utilizou aviões da época, recriou navios, uniformes e armas de acordo com documentos históricos, e o foco dado aos personagens comandantes é parte indispensável da trama. Ao final, o famoso discurso de Churchill inflama o público, e a catarse da sobrevivência dos soldados, de heroismo individual e coletivo é exaltada.

Alguns outros exemplos são O Resgate do Soldado Rian (1998), Patton (1970), Zulu (1964), 300 (2006), A Hora Mais Escura (2013).


Em conclusão, o cinema pró-guerra assume que conflitos armados são simplesmente parte da história humana, há um lado bom, um lado mau, e a violência é inevitável.


Os Filmes sobre o Holocausto

Antes de partirmos para o cinema anti-guerra, precisamos discutir outro sub gênero do cinema de guerra: os filmes sobre o Holocausto.


O Holocausto é conhecido como um evento único, que perdurou durante a Segunda Guerra Mundial, onde aproximadamente seis milhões de Judeus foram assassinados. As causas e consequências são sentidas e discutidas até os dias de hoje e esse não é o foco da análise.


O cinema claramente se aproveita muito do Holocausto. As causas do genocídio, o trauma sofrido pelas vítimas, a loucura coletiva que levou um povo inteiro a perpetuar esse tipo de violência, as cicatrizes nos descendentes, e a história de um povo que, acima de tudo, sobreviveu a um dos maiores genocídios do século são temas de extrema importância, que são relevantes até hoje, e ainda serão por muito tempo.

No entanto, a classificação dos filmes que retratam o Holocausto e suas inúmeras consequencias como filmes “de guerra” é falha. Com o foco em um evento único, o conflito armado em si não pode coexistir com a exploração do genocídio.


Se o filme quer explorar, por exemplo, a vida dos judeus do Gueto de Varsóvia durante a Guerra (como em O Pianista), o conflito deve, por definição, ficar em segundo plano para que o retrato do sofrimento do povo seja genuíno e focado.

Alguns exemplos são A Lista de Schindler (1993), O Pianista (2002), A Vida é Bela (1997), Shoah (1985).


Assim, filmes que se focam exclusivamente no Holocausto não são nem pró-guerra, nem anti-guerra, por não apresentarem um foco primário no conflito da guerra, mas nas consequencias, causas e acontecimentos do evento isoladamente. A história dos soldados, civis e generais deve ficar em segundo plano.


Cinema Anti-Guerra

O cinema que busca explorar a futilidade do conflito armado como uma solução permanente, ou como o custo humano desses conflitos é sempre alto demais é conhecido como o cinema anti-guerra.


Voltando à fala de Truffaut, mesmo quando há uma redução do conflito ao “nós vs eles”, há a possibilidade de oferecer comentário quanto à inutilidade das guerra, quanto à brutalidade no centro das relações humanas, quanto às vidas desperdiçadas em conflitos políticos.


Quando em uma via, o cinema pró-guerra se limita a alguns gêneros (em sua grande maioria filmes de ação, thrillers ou dramas), o cinema anti-guerra dispõe de um amplo leque de opções: temos comédias (Dr. Fantástico – 1964, Jojo Rabbit - 2019); thrillers (O Franco Atirador – 1978, Nascido para Matar - 1987); Ação (Cartas Para Iwo Jima – 2006); Animação (Valsa com Bashir – 2008); Horror (Vá e Veja – 1985); Documentários (O Ato de Matar – 2012), e o que quer que Terrence Mallick escolha como gênero.

A discussão dos horrores da guerra, com foco nas vítimas ou nas atrocidades cometidas em nome da pátria é o que define mais claramente o cinema anti-guerra. Deve ficar clara a mensagem de que a figura do conflito armado, do patriotismo que leva à violência e as terríveis ações cometidas sejam fúteis, desnecessárias e no final, poderiam ter sido evitadas.


Não há sempre a figura de um vilão, e muitas vezes o próprio conceito de “lados” de um conflito acaba sendo colocado em questão. O interesse das obras é no sofrimento dos seres humanos envolvidos em um conflito que é sempre contrário aos seus interesses, ou no ridículo das ações de guerra e das pessoas que tomam essas decisões.

Um exemplo dessa expressão do ridículo é Dr. Estranho, de Stanley Kubrick. Uma comédia sobre as ansiedades nucleares durante a guerra fria explora as reações do alto escalão do governo americano, no meio de um ataque nuclear idealizado por um general maluco. O conceito da Destruição Mútua Assegurada é a principal causa da comédia da obra.


O Jogo Da Guerra (1966)

O documentário (mais um docu-drama – ficção apresentada como documentário) dirigido por Peter Watkins, requisitado pela BBC (e subsequentemente banido pela mesma), filmado em 1966 no Reino Unido, conta a história de como seria a vida comum no Reino Unido após um ataque nuclear, contando a história através de anúncios de TV explicativos, entrevistas com moradores, médicos, policiais e soldados, e “filmagens exclusivas” de eventos catastróficos enquanto acontecem, na forma de um programa jornalístico.


O Jogo da Guerra é um dos filmes anti-guerra mais marcantes já produzidos. A “trama” explora a decadência completa da sociedade inglesa, desde o colapso das instituições, a impotência da medicina, os poderes da bomba atômica e a vontade de vingança.

Assim, a obra é um exercício único ao explorar as possibilidades de uma guerra nuclear para o povo comum. Quem sofrerá as piores das consequencias no caso de uma guerra nuclear é o povo. Os generais, presidentes, reis e rainhas vivem cercados de proteções e planos de evacuações complexos.

Não há dramatizações de grandes batalhas, não há discurso de vitória ou até mesmo algum “inimigo”. O filme termina com um aviso: “dentro dos próximos 15 anos, é possível que outros 12 países adquiram armas termonucleares. Por essa razão, se não por acidente ou pelos impulsos humanos, já é possível que o que você viu nesse filme vá acontecer antes do ano 1980”.


É claro que essas coisas nunca aconteceram (fora de Hiroshima e Nagasaki). Mas em 1965, o acúmulo de armas nucleares pelos grandes poderes era visível. O mundo realmente chegou a um ponto onde os fatos apresentados no filme de Watkins pareciam inevitáveis.


O filme de Watkins é um dos maiores exemplos do cinema anti-guerra por não expressar nenhuma guerra específica, nem algum conflito do passado, ou fala de pessoas ou batalhas que podemos pesquisar nos livros de história.

O terror de O Jogo da Guerra é o que nasce do medo da maior arma já criada pela humanidade. Armas que já foram usadas em duas cidades em uma decisão claramente política e sem consideração pelas milhares de vidas humanas que seriam afetadas.

A pior parte da destruição vem depois. Os “sobreviventes”, pessoas completamente irradiadas lutam para viver o resto de suas vidas sem dor, alguns rogam pela morte rápida.


O terror de O Jogo da Guerra é a realidade.


Escrito por Fernando Cazelli

Comments


bottom of page