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Cinema de Bangue-Bangue: Vida e Morte de um gênero

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    Equipe
  • 11 de jun. de 2019
  • 9 min de leitura

Cinema de Bangue-Bangue: Vida e Morte de um gênero - Uma análise do gênero através de seus filmes mais icônicos


Parte 1 – O Nascimento, Crescimento e os Dias de Glória do Western


O Western é um gênero de filmes produzidos sobre o Grande Oeste americano, que nasceu junto com o próprio cinema: histórias passadas no período do fim dos anos 1800, quando o sul/oeste dos Estados Unidos ainda eram uma área em disputa, entre mexicanos, emigrantes americanos, imigrantes estrangeiros e os nativo-americanos.

O Western foi um dos primeiros gêneros popularizados em Hollywood, e ambos cresceram juntos. As histórias sobre cowboys e bandidos e índios e mexicanos eram extremamente populares para o público americano, fato esse que ajudou a impulsionar a indústria em maneiras nunca antes vistas.


A grande figura desse gênero é o “Cowboy”. Popularizado antes do cinema através da literatura “pulp” – literatura considerada barata, sem refinamento – o Cowboy é um personagem mítico, um homem com valores que lembram um samurai, rápido e certeiro no gatilho, corajoso e virtuoso.

Em quase todos esses filmes, era clara a distinção entre os “good guys” e os “bad guys”, os mocinhos e os vilões. Havia uma fórmula clara que muitos dos Western seguiam, e que têm muito a ver com a sua ascensão, glória e decadência.


De suas origens de filme B aos dias de glória com John Wayne e Clint Eastwood, o Western teve uma trajetória que merece atenção. Quando se popularizou, o Western servia de espelho para a vida na sociedade americana, refletindo seus medos e anseios durante o século, passando pela Grande Depressão, a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, Watergate, etc.


Assim, vamos a uma análise do gênero, refletido através de seus filmes mais icônicos, em seus momentos mais importantes.


1. The Great Train Robbery (1903, Edwin S. Porter)

O Nascimento do Western

The Great Train Robbery é um filme mudo com 12 minutos de duração, produzido pelo Edison Estudios (de Thomas Edison – um dos inventores pioneiros do cinema) que mostra um grupo de bandidos assaltando um trem (dã) e o tiroteio subsequente.

O cinema até aqui era composto em muitas de suas produções, de elementos fantásticos: Viagem à Lua (1902) é um dos exemplos mais famosos, mas até o próprio Edison Estúdios focava em gravar rotinas circenses, mágicos e filmes sem enredo.


Não que The Great Train Robbery tenha sido o primeiro filme produzido com enredo realista (ou até mesmo o primeiro Western – esse posto é de Kit Carson, lançado dois meses antes), mas certamente foi um dos primeiros filmes a popularizar o cinema de uma forma que podemos entender hoje.

Além de diversas inovações técnicas (como a técnica de intercalar duas cenas para mostrar que estão acontecendo ao mesmo tempo, e a filmagem no local), The Great train Robbery trouxe os ingredientes para o gênero do Western que seriam seguidos quase que como uma religião por cineastas do futuro.


Podemos ver aqui: bandidos mascarados, mocinhos corajosos, perseguições a cavalo, tiroteios (a cavalo), trens e saloons. A estrutura clássica que será seguida por décadas à frente está colocada aqui, em uma roupagem realista nunca antes vista pelo grande público.


Sendo um sucesso de público, o filme inspirou muitos cineastas que seriam grandes nomes no futuro: D.W. Griffith (The Squaw’s Love), Cecil B. DeMile (The Squaw Man)

Com a demanda crescente por esse cinema cheio de ação, heróis, vilões e donzelas em perigo, nascia um gênero de cinema. Os estúdios podiam produzir esses filmes com grandes certezas de que seriam sucessos de bilheteria.


2. Stagecoach (1938, John Ford)

O Início dos Dias de Glória

Antes de entrarmos na análise de Stagecoach, vamos a um panorama de como era o gênero e a experiência geral do cinema em 1938.


O cinema como forma de arte popular está crescendo. Muitas cidades grandes já têm teatros dedicados apenas às projeções cinematográficas, alguma forma de crítica especializada acabou de nascer e os filmes com som vieram para ficar. No entanto, as produções consideradas mais sérias têm um ar mais artístico, com produções com foco em temas mais fantásticos e menos realistas, como comédias e terror.


O Código Hays (o Motion Picture Code – Chamado Hays por causa de seu criador, Will H. Hays – presidente da Motion Picture Producers and Distributors of America - MPPDA) foi um conjunto de regras morais criadas em 1930 (que foi aplicado até 1968) para os Grandes Estúdios, que trazia uma série de normas “morais” para a exibição e distribuição de filmes no território americano.


Esse código trazia coisas como com a proibição de profanidade, relacionamentos interraciais, nudez, entre outras coisas. Naturalmente, mudou o panorama do cinema, onde se produziam mais filmes com esses ideais considerados “puros”, seja por medo de perseguição de cunho moral, uma genuína preocupação com os valores americanos ou pelo interesse financeiro (a MPPDA era a maior distribuidora da época).


Assim, as produções de terror, fantasia e muitas comédias começaram a lutar mais para encontrarem seu público. A população concordava com a aplicação desse Code e as produções mais “puras” encontravam mais popularidade.

Foi assim que o Western – um gênero até então conhecido por suas histórias de cowboys e índios, seus heróis moralistas e vilões claros e nefastos, encontrou sua era para crescer e evoluir. Após a Grande Depressão, o público via as autoridades com certo desdém, os banqueiros até então respeitáveis viraram os vilões, os xerifes viraram os bandidos.


Em 1938, foi lançado Stagecoach, um filme dirigido pelo lendário John Ford (que nesse ponto da história já tinha dirigido mais de 60 filmes), que estrelava o até então ator de filmes B John Wayne, trazia uma inovação ao gênero. Na sua história, nove personagens mal vistos pela sociedade representam várias seções da sociedade americana que até então eram vistas como párias: Dallas, uma prostituta; Hatfield, um apostador; Dr. Boone um bêbado; o Ringo Kid, um fora-da-lei (John Wayne).


Não que o filme analise com rigor o passado desses personagens, mas Stagecoach é uma história de redenção, contada com sutileza na maneira em que desenvolve seus personagens através da trama que os coloca contra um mundo cheio de corrupção, ganância e a imoralidade do mundo moderno.


Stagecoach foi um Western que ia na contra-mão de seus antecessores: onde os cowboys e xerifes eram os grandes heróis, agora esses heróis eram prostitutas, foras-da-lei, apostadores e bêbados. O filme não hesitava em desenvolver esses personagens e coloca-los numa situação que criaria empatia com o público, coisa essa pouco vista nos Westerns do passado.

Muito mais pode ser contado sobre esse filme, como a sua produção que levou os atores a locações nunca antes utilizadas, ou a equipe de produção, que foi realizar grandes coisas no futuro, ou a influência que esse filme teve no estrelato de John Wayne, mas vamos focar no próprio gênero do Western aqui.


Stagecoach foi um sucesso absoluto de público. Seus comentários sociais e dilemas morais mostraram para o grande público que produções sérias sobre o Grande Oeste eram não só possíveis, mas demonstravam o grande potencial até então não explorado desse gênero.


3. High Noon (1952, Fred Zimmerman)

O Western Politizado

Dirigido por Fred Zimmerman, High Noon é o conto de um xerife aposentado recém casado que, mesmo perante protestos de sua esposa, decide deixar de lado sua aposentadoria para enfrentar uma gangue de quatro pistoleiros que está chegando na cidade no trem do meio dia para matá-lo.


O filme tem um roteiro bastante minimalista, focando apenas no conflito do seu personagem principal, que roda a cidade de Hadleyville buscando ajuda para seu confronto, sendo absolutamente negado e isolado durante todo o filme.


High Noon foi um marco do Western da década de 50 por causa das controvérsias que levantou por sua produção, levando o roteirista do filme a ser exilado do país no ano seguinte.


Durante o período conhecido como a Guerra Fira (conflito não armado entre os EUA e a URSS que durou desde 1945 a 1991), os Estados Unidos viveram uma onda de paranóia anti-comunista, que era inflamada pelo contexto político e social da época. Todos que não concordassem com o governo eram taxados de comunistas e assim marginalizados. Os comunistas em si eram vistos como perversores da vida americana com seus ideais (inclusive, Vampiros de Almas é visto como uma alegoria clara a essa paranóia).


Esse movimento de medo e paranóia anti-comunista era chamado de McCarthismo, pois era encabeçado pelo Senador americano Joseph Raymond McCarthy. Muitas pessoas eram acusadas de serem comunistas (sem qualquer necessidade de evidências ou um processo justo) e eram trazidas perante o governo em uma espécie de julgamento público, que na maioria das vezes, acabava mal para o julgado.

O maior instrumento dessa perseguição traduzia-se na HUAC – House Um-American Activities Comitee, um comitê parlamentar que analisava atividades “não-americanas”.

Carl Foreman (o roteirista de High Noon) já estava sob a mira do HUAC por suas obras consideradas “subversivas”, como Home of the Brave, The Men, Champion. Muitas “audiências” foram feitas para analisar o conteúdo “ideológico” dessas obras, que criticavam o status quo abertamente. Foi assim que surgiu a ideia de High Noon, uma obra idealizada para confrontar essa perseguição sofrida.


Em High Noon, o personagem principal é um homem que lutou pela cidade de Hadlevylle por anos, mantendo a ordem e a paz, tendo no passado levado um bandido a ser preso. Agora, anos depois, quando é ameaçado por esse bandido que ajudou a prender, o Xerife Kane precisa de ajuda durante o confronto que ocorrerá. O povo da cidade (e suas autoridades) é mostrado como alheio à situação de Kane: as pessoas que não o ignoram negam ajuda abertamente.


A trama é claramente uma alegoria ao tratamento que muitos cidadãos americanos sofreram durante essa perseguição encabeçada pelo próprio Estado durante a Guerra Fria. Ante uma ameaça considerada pior, o povo e as autoridades se mostrariam absolutamente covardes e inativos para ajudar quem realmente precisava, refletindo a situação da sociedade durante a paranóia anti-comunista.

E também, um tema recorrente em High Noon é a corrida contra o relógio. Esse tema reflete a ansiedade do povo americano com relação à corrida armamentista com a USSR: os desenvolvimentos da Guerra Fria pairavam sobre as vidas americanas como o próprio tempo, e uma guerra nuclear parecia iminente.


Por seu teor político claro e pouco sutil, High Noon permanece uma das obras mais controversas do Western até hoje. O lendário John Wayne, que na época era o líder de uma organização anti-comunista, fez campanha contra o filme e Gary Cooper, em apoio às atividades da HUAC. Vários presidentes americanos modernos expressaram seu amor por High Noon, como Bill Clinton, Barack Obama e Ronald Reagan.


High Noon é a prova definitiva de que o Western (assim como o cinema em si) é um gênero muito versátil, vindo a trazer histórias que refletissem o contexto socioeconômico da sua época, como toda boa arte se esforça em fazer. High Noon continua até hoje sendo considerado um dos maiores Westerns já feitos.


4. The Good, The Bad and The Ugly (1966, Sergio Leone)

O Spaghetti Western e o fim do Glamour

Conhecido pela “Trilogia dos Dólares” – composta por A Fistfull of Dollars (1964) e For a Few Dollars More (1965) e The Good, The Bad and The Ugly (1966) – Sergio Leone elevou o gênero do Western ao incorporar os maiores clichês do gênero em um filme cheio de ação e com uma cinematografia ímpar, imitada até os dias de hoje.


Famoso pelo uso de planos extremamente alongados que mostram a paisagem em sua vastidão, os Westerns de Leone se destacam pelo estilo que apresentavam: os close-ups, o senso de humor, as trilhas sonoras e o uso desenfreado de clichês e roteiros considerados “fracos” para a época (lembrem-se que já eram comuns Westerns mais “artísticos”, com roteiros mais desenvolvidos).


O “Spaghetti Western” é um movimento popularizado por Sergio Leone quando a sua Trilogia dos Dólares fez sucesso de crítica e público no mundo inteiro. Marcado pela produção quase toda vinda da Itália, com elencos internacionais, e em sua maioria, filmados na Itália, o Spaghetti Western solidificou-se nos anos seguintes, criando muitas inovações que completariam o ciclo e seriam utilizadas no Western americano

As maiores características do Spaghetti Western são: a “desmistificação” do Western através de seus personagens e cenas de ação (o glamour do Western era totalmente desconsiderado – talvez por ser um movimento nascido fora dos EUA, sem a carga emocional e social); os planos alongados; os zooms e close-ups (mais utilizados nas cenas de ação, para dar um efeito mais rápido para as cenas); e a utilização da música.

O público americano já demonstrava uma tendência ao desinteresse pelo Western: os anos 60 foram duros com os EUA, levando à desilusão com a arte que exaltava os valores americanos.


The Good, The Bad and The Ugly foi o terceiro filme da Trilogia dos Dólares, estrelado por Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef, o filme foi um sucesso de crítica e público no mundo inteiro, por seu senso de humor e por seus personagens icônicos e cenas memoráveis.


Para Leone, o que não está na tela não existe. Essa escolha estilística questiona um clichê do Western clássico, onde... o que não estava na tela não existia (talvez nascido de uma exigência de criar filmes mais simples para o grande público), esse clichê é parte essencial da arte que Leone expressa em The Good, The Bad and The Ugly.

Leone conta a história desse filme muito mais com imagens do que com palavras (talvez pela restrição de ter que dublar todo o diálogo – todos os atores liam com suas línguas nativas). A fotografia e a construção das cenas tem muito mais importância aqui do que em outros filmes do gênero. Para Leone, como já dito, o que não está na tela não existe: a construção da cena se torna tão importante quanto diálogo ou música.


O resultado desse cuidado do diretor em tornar sua construção da cena em uma parte vital de seus filmes está em algumas das cenas mais icônicas do cinema: o tiroteiro no cemitério, a explosão da ponte, a introdução dos personagens. O roteiro aqui é meramente um veículo para as cenas de ação, são essas as cenas em que desenvolvem-se os personagens.


No final do dia, The Good, The Bad and The Ugly é um filme em que todas as suas peças encaixam-se perfeitamente, a ação, a música, os diálogos, os personagens, tudo cumpre seu papel com uma harmonia que até hoje é incomum.


Após seu sucesso, muitos cineastas do gênero viram que a vontade do público era por filmes que mostravam a desconstrução do mito do Western. Realmente, após o lançamento de The Good, The Bad and The Ugly, poucos filmes realmente trabalharam para evoluir o gênero. Agora só faltava para o Western seus momentos de introspecção e sua eventual morte, que vieram nos próximos anos.


Fim da Parte 1


Escrito por Fernando Cazelli

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