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Toy Story 4 – Uma inclusão obtusa em uma franquia (quase) perfeita

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    Equipe
  • 19 de set. de 2019
  • 5 min de leitura

Não é nenhum segredo ou surpresa quando se diz que a franquia Toy Story é uma das mais importantes e influentes do mundo da animação. Falar de Toy Story é falar, ao mesmo tempo, da Pixar e da evolução da relação do público com as animações nas produções modernas. Dentro de mais de 25 anos, Toy Story é uma série de filmes que moldou o mercado e o público, e sua influência é inegável, e o impacto que esses filmes tiveram na geração atual de cineastas e espectadores não tem comparação.

O primeiro filme (de 1995, dirigido por John Lasseter) demonstrou um pioneirismo incrível por parte dos estúdios da Pixar, sendo do primeiro longa de animação a ser totalmente gerado por computadores. Embaixo da proeza técnica, uma história sobre amizade, companheirismo, inveja e sobre encontrar o seu lugar no mundo. Isso sem falar nos personagens icônicos e que até hoje morar no consciente do público.


Foi o primeiro longa-metragem da Pixar. Aqui, o estúdio saía da produção de seus curtas para um mundo onde deveriam competir com Disney e seus monarcas leões, princesas sequestradas, adormecidas, exiladas, etc. O sucesso de bilheteria e crítica de Toy Story os colocou no mapa de uma forma que é vista poucas vezes nas grandes produções de Hollywood.

Toy Story 2 (1999, John Lasseter) continuou a solidificar a história da Pixar. Expandindo a história dos personagens e o mundo à sua volta, a sequência conseguiu ser melhor em todos os aspectos: os personagens secundários ganharam mais destaque, as piadas foram melhores, a animação evoluiu 10 anos em 4, o roteiro nos deu um mundo maior e mais dinâmico.


O ano de 1999 é considerado pela crítica como um dos melhores anos do cinema da história (Clube da Luta, Magnolia, Quero ser John Malkovich, Matrix, etc.), e, nesse ano, Toy Story 2 foi a terceira maior bilheteria (ficando atrás de Star Wars e O Sexto Sentido). Claramente, a formula da Pixar era um sucesso.

Toy Story 3 (2010, de Lee Unkrich) foi lançado mais de 10 anos após o segundo filme, sob olhares céticos e um mercado que já demonstrava sinais de enfraquecimento da animação por computador. No entanto, tivemos uma história ainda mais emocinante, com personagens ainda mais desenvolvidos e com, talvez, o melhor terceiro ato de toda a série.


Os 10 anos entre o segundo e o terceiro filme foram a era de ouro da Pixar. Sob o lema de Lasseter de “não produzir filmes que não fossem inovadores”, o estúdio lançou clássico atrás de clássico, como Procurando Nemo, Monstros S.A., Os Incríveis, Ratatouille, Os Incríveis, Wall.E e Up. Todos eles únicos em suas premissas, suas histórias emocionantes e a animação sempre criativa e evoluindo.

Quem escreve os letreiros no universo de Carros? QUEM???

No entanto, Toy Story 3 marca o fim da era de ouro da Pixar, temos os filmes mais conhecidos do declínio da Pixar: Carros 2, Brave, Universidade dos Monstros, O Bom Diossauro, Carros 3. Durante essa última década, a discussão sobre um eventual Toy Story 4 sempre foi presente, mas o consenso sempre foi “só faremos uma nova sequência quando houver uma história a ser contada”.


Mesmo com o estúdio começando a produzir cada vez mais sequências (Carros 2 e 3, Os Incríveis 2, Universidade dos Monstros, etc.), e o clamor crítico começou a diminuir. Talvez o único filme que realmente pode ser considerado um pequeno fracasso é O Bom Dinossauro, de 2016 (arrecadando apenas USD 332,2 Milhões, com um orçamento estimado de USD 175 Milhões).


E nisso, chegamos em Toy Story 4.

A inclusão de Toy Story 4 na franquia é infeliz e, em muitas partes, um pouco decepcionante.


Como uma série de três filmes, Toy Story contava uma história sobre a relação das crianças com seus brinquedos. Um existia em função do outro: os brinquedos tinham um propósito claro, o de providenciar bons momentos para seus donos.

O arco emocional que se inicia com Toy Story, quando um brinquedo novo é introduzido e precisa aceitar sua realidade como um brinquedo, até o terceiro filme, quando os personagens principais devem confrontar a ideia de que não serão sempre os brinquedos de uma única criança, é claro e bem definido.

Havia pouco mais a ser explorado no mundo de Toy Story: os brinquedos têm noção de seu lugar no mundo e seus papéis na vida de seus donos. A não ser por poucos curtas que foram lançados, a história estava efetivamente finalizada.


A história de Toy Story 4 começa quando Woody, em mais um momento de inveja ao ser deixado de lado (um espelho de seu arco no primeiro filme), deve ajudar Forky (um brinquedo feito de materiais de papelaria) a aceitar seu papel na vida de suas crianças.


(Aqui vai uma tangente bizarra: o papel de Woody aqui parece ser quase religioso: as crianças são os deuses que devem ser servidos a qualquer custo, e Woody funciona como um sacerdote, que leva os brinquedos a aceitarem seus papéis em servitude.)

No entanto, durante as aventuras normais de Toy Story, Woody reencontra Bo, um brinquedo conhecido antigo que foi abandonado e agora vive independentemente, sem servir as crianças. A partir desse ponto, o arco da eventual independência de Woody é claro.

Esse é um dos problemas com Toy Story 4: os três primeiros filmes criaram um mundo onde o objetivo maior dos brinquedos era sempre viver por uma criança humana, e o quarto filme deixa essa ideia para trás ao introduzir a noção de que os brinquedos podem desenvolver sua própria independência. No primeiro filme, Buzz deve aceitar seu papel, no segundo, Woody rejeita uma vida de adoração fria, no terceiro, os brinquedos percebem que o amor de uma criança é o que os salva (não apenas serem objeto de brincadeiras).


Outro caminho que Toy Story 4 parece ter tomado foi o de ignorar uma das maiores forças de todos os três filmes que antecedem: os personagens secundários. Em todo o filme, personagens como o Sr. e Sra. Cabeça de Batata, Rex e Slinky são deixados de lado, confinados a uma ou duas linhas de diálogo cada, apenas para aparecerem na cena final.

A cena final carrega o impacto do filme nas costas. Com o conflito resolvido, Woody está de volta no furgão da família e está pronto para continuar a viagem com a Bonnie e seus companheiros; nesse momento, ele escolhe ficar bom Bo e viver sua vida independente, longe de seus amigos. A cena da despedida normalmente seria o ponto de tensão em que o filme se apoiaria, mas falha completamente quando nós passamos o filme inteiro sem ver a relação de Woody com seus colegas. É uma decisão de Woody que não tem mais peso emocional: a platéia já viu a decisão feita pelo personagem há pelo menos meia hora.


Mesmo com todos esses pontos negativos, há muito para se gostar em Toy Story 4: a animação está melhor que nunca e os personagens novos são carismáticos (mal vejo a hora de ver o filme com as vozes originais – aqui só consegui sessões dubladas).

Com seus próprios méritos, Toy Story 4 seria um filme excelente, mas perde-se muito quando há a necessidade de encaixá-lo em uma franquia que já havia sido encerrada perfeitamente 10 anos atrás. Para quase todos os espectadores, existirá essa comparação, essa necessidade de encaixar esse filme em algum contexto emocional que justifique essa inclusão (o que nos mostra a falha de Toy Story 4).


Toy Story 4 poderia ter sido uma reafirmação da franquia, uma carta de amor à formula que fez os três primeiros filmes serem o marco emocional de uma geração inteira. Mas no final, assistir Toy Story 4 nos deixa com um gosto amargo na boca, uma sensação de que o que veremos pela frente será “Toy Story” apenas no nome.


Mais histórias vêm aí, e isso não é razão para celebrar.


Escrito por Fernando Cazelli

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