Coming of Age & Slice-of-life – A vida humana retratada pelo cinema
- Equipe
- 19 de abr. de 2019
- 6 min de leitura
É natural que todo o ser vivo, sem exceção, nasça, cresça e eventualmente morra. Certo, mas e durante este intervalo, o que ocorre? Como e o que acontece durante este crescimento? Quem são os envolvidos neste processo? Isto é o que os filmes Slice-of-life e Coming of Age nos respondem, cada um à sua maneira e todos corretos, afinal de contas todos evoluímos, mas de maneiras diferentes.

O que significam estes termos afinal?
Slice of life ou pedaço de vida é um termo usado para designar o uso do realismo mundano através de experiências cotidianas e Coming-of-age, vinda da idade ou amadurecimento é um gênero na literatura e cinema que enfatiza o crescimento do protagonista da juventude para a idade adulta.
Como citado, ambos termos não se limitam apenas ao cinema, mas abrangem outros tipos de arte como a literatura, o teatro e a música. Normalmente obras do gênero geralmente não se preocupam em explicar por que, mas sim como e o que ocorre durante o tempo que corre a vida. Os famosos romances de formação da literatura, livros como “David Copperfield” e “Grandes Esperanças”, ambos do Charles Dickens, eram revolucionários em sua época, pois em oposição às histórias de amor excessivamente melodramáticas e forçadas, mostravam da maneira mais crua e direta possível como era o processo natural da vida, no caso o nascimento e crescimento dos protagonistas e o que acontecia ao seu redor.

Pegando carona nesta tendência, obras como “O Apanhador no Campo de Centeio” de J. D. Salinger revolucionaram a literatura, traçando o que se passa na cabeça de um adolescente e com uma linguagem mais crua e coloquial ainda, abordando temas como vícios, virgindade, homossexualidade, alcoolismo, prostituição, escola e família. Lembrando que estamos falando da década de 50. Antes tempo não existia o intervalo entre a infância e a idade adulta.
Já na música, álbuns como “The Wall” do Pink Floyd e “Tommy” do The Who, que inclusive viraram filmes, podem ser inseridos nos gêneros e equiparados aos romances de formação, por justamente entrarem no conceito do amadurecimento dos personagens e com muito da teatralidade que muitas vezes não se encontra na música, ainda mais em bandas de rock.
Pois bem, chegou a hora de falar do cinema. “Juventude Transviada”, assim como a já citada obra de Salinger, iniciou uma tendência sobre falar de adolescência, tendo influenciado clássicos como “Curtindo a vida adoidado”, “Karate Kid” e “Clube dos Cinco” que também vêm à mente quando se fala de filmes sobre amadurecimento, justamente os que envolvem adolescência, fase da vida onde o crescimento tanto físico quanto mental é o mais acentuado e que costuma ser um momento repleto de incertezas, descobertas, inseguranças e apreensões. Tudo é muito incerto. Você de repente deixou de ser criança, o mundo deixou de ser tão colorido e descobrimos que a vida não é tão mágica como em filmes de fantasia.

Décadas depois, viriam filmes diretamente influenciados por estes, como é o caso de “Superbad” e “Projeto X”, que tem um frescor mais moderno e retrata a visão dos famosos nerds e “geeks” em fase escolar na era dos computadores e da internet, e “Donnie Darko”, que se ambienta na década de 80 e mistura elementos de sci-fi e suspense.
Mas o jeito de se fazer este tipo de filme da forma mais espontânea possível, como se estivéssemos lendo uma obra de Charles Dickens no cinema, foi consagrado com o diretor Richard Linklater. No estilo dos clássicos Coming of Age da década de 80, apesar de retratar o final da década de 70, é lançado “Dazed and Confused” em 1993, já dando os primeiros sinais de seu estilo na sétima arte, que baseia-se em diálogo, pessoas, uma câmera e muita espontaneidade, tudo o que é necessário para fazer uma obra tocante. Mas a consagração de verdade veio ao lançar “Before Sunrise” dois anos depois e mais duas continuações, “Before Sunset” e “Before Midnight”, fechando assim uma maravilhosa trilogia que mostra as reviravoltas do amor e a relação entre duas pessoas e de forma extremamente humana e genuína.
As três películas, de forma totalmente despretensiosa, mostram inúmeros pontos, por exemplo como dois indivíduos se conhecem, o que ambos pensam, o que compartilham em comum e diferente e como eles se dão nos momentos de harmonia e desavenças.
Como se fosse pouco, o cineasta entrega o que muitos consideram como o melhor filme da década de 2010: “Boyhood”. Pegando emprestado elementos de seus irmãos mais velhos, o filme mostra a vida como ela é, da forma mais simples possível, mostrando as coisas mais comuns que fazemos e que acontecem conosco. Os atores literalmente vão envelhecendo à medida que o filme avança, consequência de 12 anos de filmagem, que captaram o avanço dos personagens, física e mentalmente. No mesmo estilo, porém com atores diferentes a medida que o Chiron, o protagonista, cresce, pode ser citado “Moonlight”, que capta as cicatrizes que o protagonista acumula durante a vida, exemplificando que a mesma tem alívios de vez em quando, mas a maior parte dela não é nada fácil, além de mostrar o dia-a-dia em uma comunidade majoritariamente negra e abordar temas como solidão, carência, criação de filhos por uma mãe só, criminalidade e até mesmo homossexualidade e homofobia.
Mas Moonlight e as obras de Linklater não seriam nada sem a saga de Antoine Doinel, considerado por muitos o alter-ego de François Truffaut, que provavelmente influenciou o diretor americano por mostrar o personagem principal crescendo a cada filme em tempo real, resultado da parceria de longa data entre o cineasta francês e o ator Jean-Pierre Léaud. A série conta com alguns curtas e quatro filmes principais, sendo o primeiro “Os Incompreendidos", de 1959, na época que a indústria cinematográfica criou a tendência de fazer filmes sobre adolescência e amadurecimento, de repente surge uma película que começa a contar a história do jovem rebelde Antoine Doinel que, da transição da infância para o início da adolescência é um garoto rebelde, ardiloso e cheio de carisma, que participa de uma história repleta de temas como adultério, castigos, sistema de ensino, fuga e briga de casais. Nove anos depois é lançado “Beijos proibidos", onde o personagem principal está saindo da adolescência e entrando na idade adulta, tendo de lidar com a dispensa do alistamento militar, um relacionamento turbulento com a namorada e a busca por um emprego para se sustentar. O terceiro filme, Domicílio Conjugal, aborda um Doinel na idade adulta com um casamento instável, o nascimento de um filho e aborda também um caso extraconjugal que o rapaz tem. Amor em Fuga é o ultimo filme da saga e nele vemos o protagonista com mais de 30 anos como um autor bem sucedido mas ainda assim um homem muito instável no amor e nas relações pessoais. Apesar dos dois últimos filmes da saga serem menos interessantes, o ponto chave é que, baseado em sua própria vida, Truffaut conseguiu alicerçar o estilo slice-of-life/coming-of-age na sétima arte e definir, através da naturalidade, bons textos e personagens marcantes, a fórmula para fazer filmes do gênero.
Muitas pessoas costumam achar este tipo de filme chato por não “ter história”, segundo elas. Podemos pensar que ver algo no cinema parecido com nossa rotina não tem a menor graça, afinal, fazemos isso todos os dias. É certo que alguns filmes dos gêneros Slice-of-life e Coming of Age não são conhecidos por ter histórias épicas ou grandes aventuras, mas é aí que está a magia: nem sempre a vida é feita de fantasias ou momentos gloriosos, somos pessoas e não semideuses ou algo do tipo, nossa vida é algo comum, corriqueiro, trivial e real. Dado este motivo, por outro lado, uma parcela de pessoas costuma adorar estes estilos, justamente por não ser fantasioso e por gerar empatia, seja por você identificar-se com o personagem ou por gostar tanto dele como se fosse um membro da família e torcer pelo mesmo.
Poderiam ser citados diversos outros exemplos de filmes, como é o caso de “Stand by me”, “Rushmore”, “Cinema Paradiso” , os animes “A viagem de Chihiro” e “Meu amigo totoro”, “Forrest Gump”, “Lady Bird", “O primeiro dia na vida de um homem", entre outros, mas a questão é que todos estes filmes e mais inúmeros exemplos têm algo em comum: mostra que apesar de diferentes, somos todos iguais, todos seres humanos no fim das contas, com sonhos, medos, falhas, alegrias, tristezas e tudo o mais. Nascemos, crescemos, desenvolvemos, amadurecemos e finalmente morremos.
Há muito é perguntado o que é a vida, qual nosso propósito, porque viemos ao mundo. Nenhum tipo de arte, nem mesmo o cinema, conseguiu responder está pergunta, mas ao menos tivemos obras tão reais e sinceras que pelo menos chegaram perto desta resposta, nos mostrando o que acontece conosco neste intervalo entre o nascimento e o óbito o qual chamamos vida.
Escrito por André Germano
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