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"O Cheiro do Ralo" e a Filosofia de Thomas Hobbes

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    Equipe
  • 19 de jun. de 2019
  • 4 min de leitura

[Recomenda-se ver o filme antes de ler o artigo]

O filósofo Jean-Jacques Rosseau acreditava que o ser humano nasce bom mas é corrompido pelo ambiente onde vive. Já outro grande nome da filosofia, Thomas Hobbes, acreditava que o homem é naturalmente mau, a começar pelos bebês. Se essas criaturas fofas fazem da sua vida um inferno caso você não faça suas vontades como alimentação e sono não sejam atendidas, então são seres puramente egoístas que prezam somente pela própria sobrevivência mesmo não sabendo dizer uma palavra.


Bem, no cinema há inúmeras obras que falam sobre como o homem só pensa em si mesmo e é capaz de qualquer coisa para benefício próprio. Obras como Cisne Negro, que aborda a competitividade e o ego, Gummo, que descreve o quão nojento podemos ser e como o ambiente contribui ainda mais para isto, as obras de Gaspar Noe como Sozinho contra todos e Irreversível, que falam sobre o pior lado possível da natureza humana e o que de mais imoral pode vir dela, entre outros exemplos, mas hoje focaremos em uma obra que muito chamou a atenção da pessoa que vos escreve: O cheiro do ralo.

A película conta a história de um homem que trabalha em uma loja de penhores, Lourenço, majestosamente interpretado por Selton Melo, que trapaceia a todos que vão lá vender suas coisas, para conseguir o maior lucro e vantagem possíveis. Esta loja, localizada em um galpão, tem uma particularidade: fede demasiadamente, devido a um ralo localizado no banheiro cuja porta dá ao local onde ocorre os negócios, cujo vaso sanitário é somente utilizado por este tal homem de negócios. Ele costuma frequentar um boteco próximo onde uma atendente possui, digamos assim, um par de nádegas de presença, que são objeto de extrema cobiça do protagonista.


Lourenço faz os seus negócios da forma mais trapaceira possível como se ele fosse o Zeca Urubu e o cliente o Pica-Pau, fazendo coisas como induzir uma cliente a tirar a roupa enquanto ele se masturba ou dizer que um olho e perna falsos eram de seu pai, que morreu na guerra, para, assim, ganhar mais quando vendesse. Ao mesmo tempo, tem de lidar com um divórcio que ele mesmo solicitou, faltando pouquíssimo para a cerimônia do casamento, ou então, “quando os convites já estavam na gráfica” e com uma ex-esposa que não sabe lidar muito bem com isso, além de um encanamento com defeito que fazia o tal ralo feder. Enquanto tudo isso acontecia, Lourenço só pensava em uma coisa: na tal bunda, a qual ele era capaz de fazer qualquer coisa para conseguir.

Depois de ter sido preso por supostamente abusar de uma garota que fazia negócios com ele e de ter dito coisas indevidas à garçonete dona do bumbum que tanto queria, ele finalmente consegue apalpa-lo, em uma cena pateticamente triste. Abraçando o par de nádegas nuas e chorando desconsoladamente, tudo que nos perguntamos, de forma retorica, é: “conseguiu o que queria, seu imundo desgraçado?”, ao passo que sentimos pena do protagonista, porque é aí que percebemos que ele é um ser maldoso, mas é apenas um verme que se rasteja até o seu alvo de cobiça, uma bunda feminina que ele enxerga como um pedaço de carne e desconsidera que a dona da mesma, bem como todos com quem fez negócios, sua ex-esposa, empregadas e os encanadores, também são seres humanos, que aliás são tão sujos e vis como ele e o ralo serve como um elo para toda essa sujeira. Duvida?


Sabemos que Lourenço é um charlatão de primeira, mas e a esposa possessiva que tentou o matar? E alguns de seus clientes? As mulheres que tiraram a roupa, que eram comprometidas, por troca de dinheiro? Elas não poderiam ter dito não ao invés de ganhar uma grana pra não perder viagem? E alguns caras que tentavam enrolar Lourenço para conseguir dinheiro a mais em algo sem valor, mesmo que sem sucesso? Pois é, todas as personagens, por menor que seja, têm um nível de maldade.


Inclusive, um dos clientes acusou Lourenço, dizendo que o cheiro vinha dele e não do ralo, pois o único que usava o banheiro, e consequentemente, o ralo, era o dono. Será que o homem que disse isso já não conhece a sujeira e só assim, pudesse falar com tanta propriedade? Porque não? E se cada ser humano tiver seu próprio ralo fedido, o qual é o bode expiatório para a sujeira dele mesmo? Os momentos do filme o qual Lourenço tenta solucionar o mal cheiro corroboram o pensamento, porém, da metade para o final do filme, o nosso anti-herói simplesmente desiste de fazer o ralo parar de feder para finalmente acostumar com seu cheiro, inclusive de maneira voluntária, até mesmo no momento em que está morrendo, em um ato de abraçar à sua própria podridão.

O ralo é o objeto que fede e o qual o personagem reclama o filme inteiro e o aceita no final e a bunda é seu objetivo. As nádegas são uma parte do corpo muito chamativa na cultura brasileira. É a primeira coisa que os gringos reparam em nossas mulheres e é o muitas dessas querem alcançar enquanto treinam em academias. Mas também é o lugar por onde saem os excrementos que fazem o ralo exalar odor. Até o fetiche de nosso personagem principal tem ligação com o ralo, tamanha a sujeira e maldade que o mesmo possui.


A moral do filme talvez seja que, no fundo, tudo tem relação com o ralo, isto é, com o mal. Todas as pessoas tenham seu próprio ralo e seus desejos mais sujos estão conectados por um mesmo canal de esgoto, tamanha é a maldade intrínseca a nós. Esta condição é a qual não queremos aceitar de nós mesmos, é a mesma que queremos censurar ao máximo, bem como o odor das fezes.


Escrito por: André Germano

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