Metallica e os filmes concerto
- Equipe
- 21 de jan. de 2020
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Metallica e a Orquestra Sinfônica de São Francisco mais uma vez se apresentam juntos com o lendário maestro Michael Tilson Thomas conduzindo parte do show, dando início à sua última temporada em São Francisco. Gravado ao vivo nos dias 6 e 8 de Setembro, os shows também comemoram a inauguração do moderno Chase Center, uma adição histórica à orla da cidade. Incluindo os clássicos do Metallica desde o lançamento do S&M em 1999, bem como versões sinfônicas de novas músicas, este lançamento nos cinemas dá a milhões de fãs em todo o mundo a chance de vivenciar esse show na tela do cinema. (Fonte)
O gênero do filme-show é um dos mais importantes quando o objetivo é querer observar um momento cultural através da arte, suas personalidades, fãs e o impacto de uma obra ou conjunto. Através da análise de uma única apresentação, o filme deve fazer muito mais do que apenas filmar um show da maneira como ocorre: é necessário capturar o que faz esse artista que se apresenta ser relevante, o porquê de sua obra ser importante e, acima de tudo, o impacto de sua obra.
O que diferencia o filme-show de uma simples gravação de um show é a intenção de demonstrar um momento na carreira de um artista ou de um movimento, uma demonstração do seu impacto, da sua arte.

O grandioso Homecoming (da Beyoncé, de 2019) captura os dois dias da apresentação da artista e sua jornada de 8 meses até a apresentação. Podemos ver o processo de ensaios, criação, seleções etc. Tudo isso culmina numa apresentação carregada de espetáculo e showmanship único. Mesmo quem não aprecia a música de Beyonce (como quem vos fala) pode apreciar o trabalho colocado ali, e seus resultados impressionantes.
É importante capturar a vida do artista no contexto de sua obra, e Homecoming é dividido entre filmagens dos bastidores, relatos da vida pessoal de Beyoncé e o próprio show. A captura da sua presença de palco, sua dança e canto cheias de energia, contrastadas com a criadora, diretora, esposa e mãe se juntam para formar um retrato poderoso de uma das maiores artistas da época.

Outro grande filme-show é o Stop Making Sense (do Talking Heads, 1984), que busca uma retratação minimalista, ao filmar apenas o show, mas onde, no decorrer do show, a cada música, um membro é adicionado ao palco, culminando numa apresentação épica, cheia de criatividade e vida, como é a música do Talking Heads.
O palco vai se tornando um lugar amontoado de gente, todos tocando algum instrumento, fazendo algo. A química entre os membros da banda e a energia pura do frontman David Bryne é intoxicante. Mesmo mostrando apenas o show, são claras a narrativa e a intenção artística do diretor Jonathan Demme (de Silêncio dos inocentes).

Mas o que nos traz aqui hoje é o lançamento do Metallica S&M2.
A primeira incursão do Metallica no mundo da música clássica foi um sucesso absoluto: Metallica S&M permanece até hoje como um dos álbuns mais icônicos e reverenciados da banda. Vindos do lançamento de dois dos álbuns mais controversos da banda, um show com arranjos orquestrais era certamente um risco (novidade não era) que rendeu bons frutos à carreira da banda.
O primeiro filme trouxe um show cheio de energia, arranjos musicais criativos, e uma setlist que abraçava o Metallica clássico (com Call of Chthullu, Master of Puppets) e celebrava o novo (com The Memory Remains, Hero of the Day, Fuel). A banda porta-se muito bem com a orquestra e a condução do maestro Michael Kamen complementa bem a variedade de estilos do Metallica.

Já o segundo filme parece não assumir tantos riscos quanto seu antecessor. Com uma setlist que repete muitas das músicas (Master of Puppets, For Whom the Bell Tolls, One, Outlaw Thorn, Enter Sandman, etc.), há pouco no sentido de dar o tratamento orquestral a novas músicas do catálogo do Metallica (por exemplo, Fade to Black e Creeping Death continuam negligenciadas).
Além das oportunidades perdidas com novas músicas, muitas das músicas novas trazidas são dos álbuns... menos queridos pelo público. A intenção é boa: fazer um show do Metallica com músicas dos 10 álbuns de estúdio da banda (agradeçam por não contarem Lulu no meio disso), mas o resultado é que o meio do show é recheado de músicas com pouca energia, levadas apenas pelo espetáculo visual e pelos arranjos orquestrais.

Falando na orquestra, um destaque muito maior é dado a ela. A orquestra cerca a banda em uma Arena circular, e os dois maestros interagem com a banda e a plateia de uma forma carismática. Um dos pontos altos é a execução de duas peças que o Maestro Michael Tilson introduz como “clássicas, mas metal”: Scythian Suite, Op.20, Second Movement (de Sergei Sergeyevich), tocada só pela orquestra; e Iron Foundry (Alexander Mosolov), acompanhada pela banda.
A direção do filme é extremamente competente, o visual do filme é excelente. Há até uma pequena referência na abertura do show: quando Ecstasy of Gold é tocada – música de Ennio Morricone, do filme The Good, the Bad and the Ugly - os cortes e ângulos são paralelos do filme de Sergio Leone.

O ponto alto do show vem com a execução de Anesthesia (Pulling Teeth), por um dos violoncelos da orquestra, que é acompanhado pela banda. É uma homenagem tocante a Cliff Burton, e os fãs certamente vão sentir o impacto emocional da escolha feita ali.
Vê-se aqui o potencial perdido de S&M2: se houvesse um pouco mais de atenção no setlist, o show seria inesquecível; no entanto, reciclando músicas presentes no S&M e enchendo o show de músicas de pouco impacto, S&M2 acaba sendo um espetáculo mais visual e sonoro do que uma carta de amor da banda para seus fãs.
Escrito por Fernando Cazelli
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