Desconstruindo Woody Allen + “Manhattan” completa 40 anos
- Equipe
- 15 de mai. de 2019
- 4 min de leitura
Allan Stewart Königsberg, Woody Allen, descendência judaica, 83 anos de idade e uma carreira como cineasta que se estende desde os tempos da New Hollywood. A grande questão é: qual a fórmula da longevidade de suas produções?

A obra de Woody Allen conta com um amplo catálogo de tragicomédias que ironizam e analisam os hábitos de uma classe social burguesa e branca o que resulta em uma autocrítica do próprio diretor, tornando o conteúdo aparentemente autobiográfico, apesar de ele ter negado isso à imprensa em Oviedo durante a exibição de Você vai conhecer o estranho dos seus sonhos. Essa ideia surge pelo espaço em que Allen está inserido e como ele se posiciona publicamente, sendo que constantemente atuava com suas parceiras e, enquanto personagens, eles desenvolviam um relacionamento amoroso.
O que acontece é que diversas características se cruzam entre a persona de Woody Allen e ele mesmo: o ateísmo/agnosticismo (bem nítido em Para Roma com amor); constante debate psicológico resultado de anos de terapia (Noivo neurótico, noiva nervosa); envolvimento com mulheres mais novas (Manhattan); ressalvas à superficialidade hollywoodiana-burguesa (Blue Jasmine e Match Point); e medo da morte (A última noite de Boris Grushenko).
Nesse sentido, A rosa púrpura do Cairo talvez seja uma das metragens de maior destaque justamente por não contar com a atuação do cineasta, tão pouco discutir sobre a classe alta e seus problemas: aqui é vista uma mulher pobre, cujo marido lhe drena os sonhos e prazeres da vida, restando-lhe como único alívio o cinema. Portanto trata-se de uma obra metalinguística que busca resgatar o que o audiovisual significa e simboliza para a população no geral: como o público se envolve com a história e os satélites de um filme (seus apelos emocionais).

A metalinguagem e quebra da quarta parede são mecanismos recorrentes, talvez sendo destacados em Para Roma com amor cuja cena inicial apresenta um agente de trânsito italiano que conversa diretamente com o espectador, introduzindo-o ao contexto da narrativa. Em alguns casos, apela-se para uma linguagem antinatural, ou, em outras palavras, que apenas não segue o ritmo da vida real, adentrando a psique, como em Desconstruindo Harry.

Além disso, a narrativa costuma ser centrada nos personagens ao invés de situações. Claramente elas existem, porém as diversas personalidades interagindo movem a trama para além das circunstâncias; escolhas diegéticas ficam claras, é como se os personagens experiencias sem e em cima disso o roteiro fosse construído – o que facilmente pode ser fruto do modo como Allen trabalha os atores, filmando poucos takes e permitindo que eles imerjam na ação de sua própria forma, o que justifica os nomes mainstream que tem formado seus elencos nos últimos tempos, como Owen Wilson e Scarlet Johansson, permitindo ao espectador conhecer outro lado de suas atuações. Um exemplo de como essa prática funciona é Cenas de um shopping em que os condutores se desdobram em uma única locação.
Por fim, talvez a fórmula que explique toda a carreira de Woody Allen pareça simples, afinal é básica. Dessa forma, pode-se analisar Paris-Manhattan de Sophie Lellouche, com admitida inspiração no diretor. O filme mostra Alice, uma jovem tímida filha de farmacêuticos que tem dificuldade de se relacionar com homens, seu amigo mais próximo é um poster de Allen com o qual ela divide suas agonias e expectativas, até que conhece Victor, desenrolando um relacionamento. Aqui há um tom mais realista, o que rodeia os protagonistas os move, sendo que eles estão à deriva nos acontecimentos.

Portanto, a ruptura do “comum” – principalmente em comédias românticas - e a filmografia de Woody Allen como diferencial é vista na produção pensada entre os realizadores e o espectador, em uma linguagem que subverte os movimentos contemporâneos a ela, como o fez na década de 70, tornando-se única, uma assinatura: a assinatura de Allen, que se mostra curiosa, apesar de suas polêmicas pessoais.
Escrito por Giovana Pedrilho
“Manhattan” de Woody Allen completa 40 anos
Será que o polêmico diretor ainda sobrevive na mente os cinéfilos?
Plasticamente inconfundível, as cenas em preto e branco de Nova York atrelada à narração do personagem principal, interpretado pelo próprio diretor do filme, Woody Allen coloca uma versão de si mesmo em uma comédia romântica que marcou muito o cinema americano em 1979. Após quarenta anos, será que Manhattan sobreviveu ao tempo e às polêmicas sobre abuso sexual e pedofilia que foram trazidas á tona sobre o diretor?

O filme conta a história de um escritor de meia-idade em uma situação onde sua ex-mulher se divorciou dele para ficar com outra mulher e está para publicar um livro, no qual revela assuntos muito particulares do relacionamento dos dois. Neste mesmo período ele está apaixonado por uma jovem de 17, que corresponde este amor. Manhattan estreou no Festival de Cannes em 1979. Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original e melhor atriz coadjuvante, também ao Globo de Ouro de melhor filme dramático. Foi vencedor do BAFTA de Melhor Filme e do César Awards de Melhor Filme Estrangeiro.

A figura polêmica de Allen gera intermináveis discussões nos grupos de “cinéfilos” nas redes sociais: “Ele realmente é e foi um homem terrível e asqueroso, alvo de diversas acusações de pedofilia vindas de sua própria filha [...] Hitchcock também foi muito polêmico em sua vida e entregou as obras mais influentes de todo o cinema e não reconhecer isso é no mínimo burrice.” explica André Germano, técnico em informática. Para o Advogado e cinéfilo Fernando Cazelli o diretor é “um indivíduo controverso e que parece não se arrepender publicamente de suas ações. Mas certamente mostrou-se prolífico e influente, com roteiros bem desenvolvidos e comédias icônicas.
Manhattan foi muito influente nos quesitos: crítica e público.”. Giovana Pedrilho, estudante de cinema no Senac – São Paulo, prefere não comentar sobre a vida pessoal do diretor porém acrescenta ”Mesmo que clamem ser repetitiva, [...] a comédia dele é singular e importante porque uniu o cômico ao plástico. Sendo que seus filmes podem ser apreciados mesmo por aqueles que prezam outros elementos acima do humor.”

Em 1992, Woddy Allen foi acusado de ter abusado sexualmente de sua filha adotiva, que na época tinha apenas sete anos de idade. Dylan Farrow, afirmou que Allen havia a tocado e suas partes íntimas, apesar de um relatório do Yale New Haven Hospital, afirmar naquela época que não ocorreu o abuso. Allen negou todas as acusações, e um ano depois tentou, sem sucesso, conseguir a custódia de Dylan na justiça. Em uma recente entrevista Dylan reafirmou que foi abusada pelo pai adotivo dizendo que, na época, ele a levou para o sótão da casa para não ser visto.
Escrito por Gabriel Pinheiro
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