David Lynch - Gênio ou Louco?
- Equipe
- 13 de ago. de 2019
- 16 min de leitura
Todos conhecem aquele ditado de que médico e louco todo mundo têm um pouco, ou aquela dita pelo famoso vocalista da banda Charlie Brown Jr, Chorão, “Só os loucos sabem". Bem, David Lynch realmente é louco, ou pelo menos taxado desta maneira mas com certeza ele sabe o que faz quando está com uma câmera na mão, ou sabia, pois infelizmente o homem aposentou-se das telas, mas deixou um enorme legado e uma marca permanente na história do cinema. Icônico em sua filmografia, como explicarei logo abaixo, Lynch constantemente é questionado sobre os significados dos seus filmes e, por mais chata que este tipo de pergunta possa ser, o diretor costuma responder, com toda calma do mundo, que ele apenas escreve os roteiros, filma as coisas e elas simplesmente acontecem daquela maneira, baseado em momentos e acontecimentos de sua vida que não convém falar, cabendo ao espectador interpretar o filme à sua maneira e com seu próprio conhecimento de mundo.

Nascido em Missoula, no estado da Montana, terra do tio Sam, em 1946, David Keith Lynch é um diretor, roteirista, produtor, pintor, ator e músico – sim, ele tem alguns Eps, trilhas sonoras e três albuns de estúdio gravados e seu estilo musical é experimental, bem como seus filmes. Conhecido por obras audiovisuais surrealistas, ou coisa de louco, ou filmes que você não assitiria com sua família sem te acharem um estranho, ele desenvolveu seu próprio estilo cinematográfico único, batizado de "Lynchiano", caracterizado por imagens de sonhos e meticuloso desenho sonoro, onde o surrealismo é um elemento que deixa o público tão chocado como extasiado.
Nascido em uma família com uma condição finaceira OK, Lynch passou sua infância viajando pelos Estados Unidos, antes de ir estudar pintura na Academia de Belas Artes da Pensilvânia, Filadélfia, para produzir seus primeiros curtas, já no fim da década de 60. A partir daí, sua paixão cinéfila falou mais alto e o moço decidiu mudar-se para Los Angeles, onde ele produziu seu primeiro longa de terror surrealista, Eraserhead, o que não foi tarefa fácil e logo mais explico porque.
Bem, agora vamos falar um pouco de seu trabalho como cineasta, dando foco aos seus filmes principais. Vai ser contada um pouco da história e será feita uma breve analise sobre o mesmo, sem spoilers. E já certifico ao leitor que falar sobre alguma obra do diretor sem deixar algo para trás é extremamente difícil, já que muitas delas são complexas e caso você tenha visto o filme que estou descrevendo, pode ter visto algo que não vi e vice-versa.
Eraserhead, 1977

A primeira película cheia de titio Lynch teve uma produção deveras tortuosa. O filme começou a ser produzido no início da década de setenta e por falta de verba, o projeto foi adiado várias vezes. Mas felizmente, do caos nascia uma obra prima. Na época em que foi lançado, o filme não fez muito sucesso mas chamou a atenção de gente como o diretor Stanley Kubrick, mais tarde se tornou um clássico cult e frequentemente está na lista dos filmes mais importantes da década de setenta, isso quando não da história do cinema, sendo ali a estréia de um estilo conhecido como lynchiano.
A obra gira em torno de um trabalhador de uma fábrica, interpretado pelo falecido Jack Nance, que trabalhou em várias obras de David Lynch até o fim da vida, que teve um filho com um formato, digamos, monstruoso, porém fofo. Usando esta estética industrial e usando de pano de fundo a vida do proletariado, o filme é um show de visuais surreais e excêntricos, sendo algumas cenas resultantes de restos de borracha de quando você apaga a escrita do lápis – por isso o nome Eraserhead.
O filme é todo em preto-e-branco e repleto de artes abstratas, mas nem por isso menos coeso e incompreensível, sabendo muito bem usar a complexidade e o deslumbre visual, sendo, também, muitas vezes uma das principais referências da onda neo-noir do cinema.
The Elephant Man, 1980

Desta vez baseado em uma história real, o cineasta fez um filme bem mais pé no chão que seu irmão mais velho e que foi um sucesso ainda maior.
Ainda em preto e branco, o filme conta a história de John Merrick, que tinha uma doença rara cujos ossos aumentavam muito de tamanho, fazendo com que sua aparência ficasse assombrosa aos olhos das pessoas e sendo uma grande chance para donos circo oportunistas usá-lo em shows de horrores e lucrarem em cima disso.
Com uma história mais delicada, é óbvio que a produção necessitava de um ar mais sério. Não só obteve esta característica como se mostrou um filme muito lindo e tocante, apresentando uma maior versatilidade do diretor para fazer tanto viagens alucinantes quanto histórias mais comoventes.
É simplesmente impossível não sentir empatia pelo protagonista, magnificamente interpretado por John Hurt, botado nas situações mais humilhantes e tristes possíveis, sendo a cereja do bolo o momento onde o mesmo grita: “EU NÃO SOU UM ANIMAL! EU SOU UM SER HUMANO!”. Destaque também para o trabalho do ator Anthony Hopkins, que é o medico do rapaz.
Duna, 1984

Com o sucesso de Elephant Man, já era hora de David Lynch entregar mais um trabalho. Mesmo sendo do gênero sci-fi, Duna foi recusado por George Lucas, que estava trabalhando em Star Wars na época, porém o cineasta surrealista aceitou produzi-lo. O primeiro longa colorido de sua carreira, que era para ser mais uma demonstração de versatilidade de nosso diretor, acabou se tornando um fracasso de bilheteria e o que muitos consideram seu pior filme.
Duna é uma adaptação, mas ficou muito diferente do livro original e com toda a responsabilidade de produzir o filme e pressão do estúdio, David Lynch acabou não fazendo o filme que bem queria. Tamanha foi a insatisfação do homem que ele afirma em entrevistas que nunca gostou muito desta película.
Bem, o autor destes humildes textos particularmente gosta deste filme. Apesar de efeitos especiais extremamente toscos até para a época, resultado de um orçamento bastante reduzido, quando você o assiste, tem a cara do diretor e seus espetáculos surrealistas. A motivação do filme, a busca por um tempero de laranja, parece idiota, assim como as cenas de luta, apesar de que, a idiotice deste filme é algo mais atrativo e divertido do que vergonhoso. Kyle MacLachlan, que viraria um dos queridinhos do diretor em trabalhos posteriores, estava mandando muito bem já em sua estréia nesta parceria.
Blue Velvet, 1986

Se o filme anterior decepcionou muito de seu público, a obra seguinte seria uma redenção. Veludo Azul ajudou a consagrar o estilo Lynchiano com o surrealismo de Eraserhead e algo mais: o suspense e o mistério, além de mais uma queridinha do diretor, Laura Dern.
A historia desenrola-se em torno de uma orelha encontrada em um terreno baldio pelo protagonista interpretado por Kyle MacLachlan, o futuro agente Cooper de Twin Peaks. Os pontos da história estão soltos em diversas partes diferentes do filme e se conectam de forma magistral, mostrando a habilidade apurada de Lynch de compor filmes conhecidos como mindblowing, ou filmes que explodem a mente. E não é só isso, o cineasta faz muito uso da cor azul e de fundos de cortina, mesclados com cenas bizarras e abstratas, tudo passando na tela de forma absolutamente fluída. Por isso, Veludo Azul é uma obra que merece um pouco mais de atenção, apesar de não ser tão complexa quanto os filmes posteriores que David faria, – como se já não fosse complexa o bastante – o que a torna uma porta de entrada perfeita para quem quer conhecer o estilo lynchiano de fazer cinema.
Twin Peaks, 1989-1991

Tudo bem que Twin Peaks não é um filme, apesar da terceira temporada ser considerada um filme de quinze horas pelo próprio diretor e ter sido apresentada em festivais de cinema, mas o caso é que a série e boa demais para passar batido pelas obras de David Lynch.
Criada pelo cineasta e por Mark Frost depois que a emissora de televisão ABC se viu na necessidade de transmitir algum programa novo, a obra conta sobre o que aconteceu antes e depois morte de Laura Palmer, encontrada morta e enrolada em um saco plástico na beira de um lago da cidade. A história gira em torno desta pacata cidade e de seus habitantes, todos personagens incríveis, únicos e cruciais para a trama.
Muitos alegam que a qualidade da série decaiu na segunda temporada, logo após o caso Laura Palmer ter sido solucionado, o que fez cair a audiência, apesar de novos episódios estarem sendo lançados até a série ser finalmente cancelada. Mesmo com o mistério resolvido, os espectadores parecem não ter entendido que a trama não se trata apenas da finada mocinha, já que cada personagem rende muitas histórias, dando pano para a manga até mesmo para uma temporada a mais e o lançamento de livros que complementam a experiência com a série.
Twin Peaks mostra que David Lynch é bom tanto para o cinema quanto para a televisão, até porque o suspense, a gradativa resolução de mistérios, as trivialidades como tomar café e comer rosquinhas e a maneira como os criadores da série fazem com que criemos afeição pelos personagens influenciou muitíssimas outras, sendo um dos maiores divisores de águas da história da TV.
Fora que a mesma não é necessariamente uma série de suspense. Além deste elemento, Twin Peaks tem romances dos mais melosos aos mais ingênuos, momentos tragicômicos com um quê de patético, personagens tanto bobos como crianças como extremamente cruéis, momentos de terror e claro, as viagens oníricas que são marca registrada do topetudo grisalho, que, além de dirigir e escrever alguns episódios, atua como o divertidíssimo tenente Gordon e se mostra um ótimo ator.
Somente assista Twin Peaks, pois aposto que o que falei ainda é pouco para descrever tudo o que a série tem.
Coração Selvagem, 1990

Basicamente, o longa-metragem conta a história de uma moça de vinte anos (Laura Dern) que resolve fugir com seu namorado (Nicolas Cage), causando um ciúme doentio em sua mãe, que tenta sabotar o casal a todo custo.
Com uma produção concomitante à série anteriormente mencionada, tendo até mesmo duas moças que atuaram em Twin Peaks, as atrizes Sheryl Lee e Sherylin Fenn, Coração Selvagem é bom, mas podia ser um pouco melhor.
Sim, os devaneios visuais do diretor se fazem presente, o roteiro também exige um pouco de exercício cerebral e as atuações são ótimas. E sim, as obras do tio Lynch têm cenas gore, mas aqui elas são excessivas de uma maneira avulsa, gerando até desconforto, algumas cenas são claramente encheção de linguiça, pouco relevantes para a trama, fora que o final é muito água-com-açúcar e com um clichê romântico e por isso considero o filme um pouco hollywoodiano para os padrões lynchianos.
Mas, sim, apesar de não ser um dos melhores de seu criador, a película te prende, principalmente com seu fluído estilo road movie e elementos de western, mostrado mais uma vez que o estilo lynchiano encaixa-se em basicamente qualquer pano de fundo.
David Lynch é um diretor com um estilo tão único e envolvente de fazer cinema que o espectador se vê fã até de filmes repletos de falhas e furos.
Resumindo, assista este filme mesmo assim, a experiência e muito válida.
Twin Peaks: Os últimos dias de Laura Palmer, 1992

Bem, não falarei de forma tão aprofundada deste filme em especial porque um de nossos colunistas e nosso querido amigo João Cardoso já fez uma análise crítica sobre este filme no blog, basta clicar aqui [ponha o link aqui] para ler, vale muito a pena. E segundo porque realmente é um filme redundante para a série. E porque?
Ora, nem precisamos ver o rosto de Laura Palmer, bastou cada pequeno mistério ser desvendado, cada áudio da moça ser reproduzindo para que soubéssemos como era sua vida pouco antes desta tragédia e além do mais, detalhes do começo do filme não deviam fazer muito sentido na época de seu lançamento, já que muitos deles só foram esclarecidos com Twin Peaks: Parte 3 e em escritos oficiais sobre a série.
Apesar de grande parte dos fãs da série e do trampo de Lynch simplesmente amarem este filme de paixão e o defendem com unhas e dentes, é inegável a decepção com o mesmo durante o Festival de Cannes. A expectativa fora alta para um filme sobre uma série de alto calibre de um diretor também de alto calibre mas o resultado fora tão frustrante que na época desiludiu até mesmo Quentin Tarantino, também admirador do topetudo.
Mas, sim, se você é ou deseja se tornar fã do cineasta onírico, assista tudo o que puder dele, incluindo esta película.
Lost Highway, 1997

Depois de cinco anos sem lançar nada, chegou a vez de gravar outro longa. Após as gravações do mesmo, o Jack Nance, parceiro fiel do diretor, foi morto no finalzinho de 1996 em circunstâncias misteriosas até hoje, sendo a causa mais provável uma briga de rua em que o ator se envolveu e lhe causou traumatismo craniano. Ele tinha 53 anos.
Mesmo que o finado intérprete não pudesse ver a última obra da qual fez parte, o filme voltou com a vivacidade que tanto fazia falta e esteve presente em Veludo Azul, apesar do filme não ter feito tanto sucesso na época e ser injustamente pouco lembrado até hoje, a não ser que você seja um amante da obra de David Lynch.
O filme, a priori, conta sobre uma mulher que foge de um casamento passado e, assim como Coração Selvagem, o ciúme é um dos elementos que move a obra.
O co-criador de Twin Peaks aqui apresentou elementos que seriam ainda mais explorados em Muholland Drive, por exemplo dupla personalidade do personagem como se este fosse realmente mais de uma pessoa, filmagem escura e sombria, a não-linearidade de Blue Velvet, elementos de ambientes como ruas para criar o surrealismo, o sexualismo como elemento escapista da realidade do personagem e a mistura de sonho/realidade como se ambos fossem uma coisa só, e tudo muito bem encaixado de uma forma única, que só nosso amado topetudo consegue fazer.
Uma Historia Real, 1999

Dirigindo um roteiro que não foi escrito por ele e baseado em um acontecimento verídico, chegou a hora de David produzir mais um filme, desta vez um que fosse pé no chão a lá The Elephant Man. Uma História Real é o filme bastante normal para os padrões lynchianos, já que em O Homem Elefante tinha uma ou outra ostentação visual surrealista, uma vez que nesta película não encontramos absolutamente nada disso, portanto, quando for assisti-lo, não espere narrativas não-lineares e shows de horrores ou viagens visuais e prepare-se para o que, segundo muitos, é o filme mais maduro que o cineasta já fez.
Mas de longe isso tira o mérito da obra ou de sua direção, que foi um acerto em cheio por parte do diretor, dando a devida carga emocional e o frio na barriga do espectador sempre que necessário e de forma intensa, mostrando-se versátil e enxuto quando tem de ser, além da maravilhosa trilha sonora composta por Angelo Badantelli, que compôs trilhas sonoras anteriormente com David Lynch.
O roteiro é simples e direto, como o título original sugere (A Straight Story) mas não se engane, nem por isso a obra é menos emocionante e reflexiva, tendo como principal tema o poder do perdão, já que conta a história de um idoso, último trabalho do ator Richard Farnsworth, que mesmo depois de ter brigado feio com seu irmão, resolve atravessar o país com um cortador de grama e uma carga atrás cheia se suprimentos para a viagem só para vê-lo, pois o mesmo havia tido um infarto, condição que fez o velhinho esquecer as diferenças e ir adiante. O filme, além do perdão, levanta reflexões como fuga e perseverança, assim como a de que não há idade para defender seus ideais, recomeçar ou mesmo perdoar e pedir perdão a pessoa com quem você teve alguma desavença passada e mais que isso, fazê-lo com atitudes ao invés de palavras.
O velho ator que fez o protagonista descobrira um câncer após o lançamento do filme e resolveu morrer de forma nobre e extremamente trágica, dando um tiro em sua própria cabeça, para que sua família ficasse em paz ao invés de se preocupar com o mesmo e sua doença. Ele tinha 80 anos. É uma pena que o mesmo não pode colher os frutos de seu trabalho, que fez certo sucesso e ajudou o diretor a levantar a moral com o público e a crítica e a arrecadar uma grana para seu próximo trabalho.
Mulholland Drive, 2001

Ou Cidade dos Sonhos, nome adaptado rejeitado pelos fãs por claramente tratar-se de um spoiler, assim como os nomes nacionais dos episódios de Dragon Ball Z. Bem, falar deste filme nunca será fácil, já que representa uma grandeza imensurável na carreira do diretor e o que muitos consideram como o seu melhor trabalho, inclusive o autor deste texto, e muitos outros um dos maiores do século XXI, o que significa que a película veio logo no comecinho deste século e já chegou chutando a porta.
O filme, na verdade, era para ser um spin-off de Twin Peaks, mais precisamente uma história sobre a personagem Audrey Horne chegando em Hollywood, mas logo o diretor mudou de ideia.
Muholland Dr. tem duas protagonistas – ou mais – Rita e Betty, uma uma atriz bem sucedida e outra não. Elas começam a se relacionar e uma mistura de realidade com sonho acontece. E eu não posso falar mais do que isso para não estragar a experiencia daquele que não assistiu ainda, ou já assistiu e de repente que ver o filme com outros olhos, já que se você assitir, não só esta obra, como outras de Lynch, em momentos distintos da sua vida, sempre descobrirá coisas novas.
Esta masterpiece é uma história sobre Hollywood, sobre realizar sonhos, sobre glamour, sobre o frescor de um estrelato prestes a vir, o que é desmistificado com a fórmula lynchiana, que simplesmente pega os padrões hollywoodianos de cinema, os bate em um liquidificador, joga a mistura em uma batedeira, a tira da mesma, joga no chão e passa com o carro por cima, ao mostrar, de forma a explodir sua mente, que os perrengues da cidade dos anjos são bem mais presentes e mais intensos do que parecem.
Tudo o que vimos antes em sua filmografia é apresentado novamente em sua mais plena forma: as brincadeiras com a linha do tempo do filme, as viagens oníricas e surreais, criaturas bizarras e essenciais para a história, humor cruel e cínico, muito mistério, atuações excelentes, – destaque para Naomi Watts que está maravilhosa e muito versátil - fotografia sombria e obscura, cenas teatrais, trilha sonora incrível e que cai como uma luva e uma complexidade coerente e coesa.
E não é para menos, o filme foi um sucesso e levou um prêmio no festival de Cannes daquele ano, na categoria Prix de la mise en scène, o Prêmio de direção.
Resumindo, um filme que não é para todos mas que eu recomendo para todos, mas tem que ser assistido com a maior atenção do mundo, sem nenhuma distração.
Império dos Sonhos, 2006

Como tudo o que é bom dura pouco, quase três décadas desde o primeiro filme para ser mais exato, esta obra foi a última da filmografia de Lynch nos cinemas. Inland Empire, ou Império dos Sonhos é o filme mais longo da carreira deste senhor, com suas quase três horas de duração. E sim, bolar um roteiro complexo como de costume, com este tempo de tela e sem deixar a peteca cair não deve ter sido tarefa fácil.
Sem a ajuda de uma sinopse, que costumam ser rasas e podar o filme, principalmente se tratando de uma obra lynchiana, fica difícil ao menos imaginar qual a história que o filme conta, mas basicamente é uma outra desconstrução do glamour de Hollywood e conta a história de uma atriz, que por sua vez nos fala de seu passado a medida que vai tentando estabelecer uma carreira nas telonas enquanto atua em um filme de quinta, cujo maior obstáculo é o elenco principal ter morrido. O papel é interpretado por Laura Dern, uma das cartas coringas do diretor como já mencionado e fazendo um de seus mais primorosos trabalhos, pelo menos o melhor dela em algo que Lynch já fez.
Seguindo primorosamente as técnicas de sempre com mais pegada, assim como em Muholland Drive e fechando a chamada “Trilogia Hollywood”, composta por Lost Highway, este filme e seu antecessor, esta é provavelmente a obra mais complexa e experimental de toda a carreira do diretor. Unindo elementos de neo-noir, suspense, drama e psicodelia, a película é uma verdadeira viagem abstrata e semiótica por uma história que vai sendo contada aos poucos e a medida que o filme avança, o espectador fica cada vez mais confuso, porém no final, as peças do quebra cabeça se encaixa de uma forma estranha, que parece fazer sentido mesmo com interrogações. O espectador precisa fazer um exercício de ligar os pontos somente com o que é mostrado nas telas mais alguns diálogos esclarecedores mas não explicativos.
A fotografia do filme faz o mesmo parecer um home movie, já que a câmera usada é digital e não de rolo como de costume e, ou a mesma é muito tremida, como quando se filma cenas na rua, ou muito estática, como se o personagem estivesse gravado uma fita para mostrar a algum parente no futuro caso morra, o que dá um ar de bastidores, algo que está por trás de todo o glamour mostrado na indústria do cinema e que ninguém quer mostrar.
É uma pena que este filme seja pouco lembrado na carreira do cineasta topetudo, pois é um filmaço e com certeza muito subestimado.
Twin Peaks: The Return, 2017

Lynch pode ter parado de fazer longas para o cinema, mas quem disse que o homem descansou? Muito pelo contrário. Na terceira temporada de Twin Peaks vemos justamente o oposto disso.
Uma obra a qual o diretor deu o sangue, dirigindo todos os episódios e que atrasou o lançamento, sendo lançada cerca de um ano depois do combinado, pela rede de TV Showtime.
A série, ou o filme, como já explicado, foi lançado em festivais de cinema como um longa-metragem gigantesco, trazendo de volta os personagens tão amados, a não ser aqueles cujos atores infelizmente vieram a óbito, assim como muitos outros também ótimos, rendendo atuações de tirar o fôlego, inclusive porque David Lynch e Mark Frost criaram personagens só para certo ator interpretar, como o caso da policial Diane, a qual Laura Dern dá a vida.
A série/filme gigante, é algo muito único e não se encaixa em nenhum gênero em especifico e é basicamente tudo o que o topetudo fez em sua carreira e mais um pouco: estou falando até de realidade alternativa, muito comum no gênero de ficção científica.
Ou seja, a obra é a coisa mais ambiciosa da carreira de Lynch no audiovisual e a encerrou com chave de ouro. Como dito anteriormente, Twin Peaks é sempre uma laranja que ainda pode ser espremida apesar do suposto mistério principal ter sido resolvido. Não, isso não é uma crítica, já que a obra trouxe a tona novamente tramas antigas ao mesmo tempo que veio com muitíssimas novidades, criando ainda mais plots e basicamente os fechando sem deixar pontas soltas, apesar de algumas coisas serem sempre melhor esclarecidas em livros complementares escritos pela galera que trampou na série e que é alvo de cobiça dos fãs mais fervorosos.
E mais, a temporada não veio como algo datado, apesar do óbvio envelhecimento dos personagens, mas sim com um frescor de um novo mundo a ser explorado, além daquele que é redescoberto junto. Ver os personagens velhinhos dá a gostosa sensação de que você está vendo um parente que você não via há anos, ao passo que muitos deles não são apenas um só. Veja só, personagens novos foram criados a partir dos antigos e se tratam da mesma faceta de uma pessoa só, como já visto em outras obras do diretor. E sim, os que morreram foram lembrados e homenageados ao longo da película.
Conclusão
Sim, rapazes e rapazas... David Lynch pode deitar a cabeça tranquilo no travesseiro ao pensar em sua filmografia que, apesar de um deslize aqui ou ali, deixou um inesquecível legado na história do cinema. Seu estilo genial e único, que passeia desde o terror, sci-fi, western, road movie, romance e drama, faz com que todos estes gêneros sejam uma coisa só se tratando da roupagem lynchiana que os mesmos recebem, com muitos deslumbres visuais, distorção da linha do tempo e estrutura nada convencional, que é um jeito único e inimitável fazer cinema. A despeito de dois dos seus filmes serem mais realistas e não seguirem esta estrutura, mostram a faceta competente do diretor e nos dá a sensação de que o cara pode dirigir o tipo de película que quiser e ainda se sair muito bem.
Assistir os filmes do topetudo mais amado pelos cinéfilos é uma viagem à historia da sétima arte, mas também uma viagem à capacidade humana em entender histórias contadas de uma forma a qual não estamos acostumados a ouvir.
E não, Lynch não é bem um louco, pelo contrário, é bem consciente do que faz em sua arte. Ele é apenas um cara único, que pensa fora da caixa em relação aos padrões de cinema comuns.
Escrito por André Germano
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