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Um mergulho em "Apocalypse Now"

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    Equipe
  • 23 de jul. de 2019
  • 9 min de leitura

Apocalypse Now é um grande filme. Seja lá qual versão você tenha assistido, a comum, a redux ou se assistirá a final cut em 4K em agosto, quando for lançada, o que poucos sabem é que os bastidores por trás desta superprodução foram turbulentos e por pouco o filme deixou de existir. Seria uma pena não termos esta obra-prima história do cinema, não é mesmo? Sim, hoje em dia eu admiro este filme mas demorou um pouco para que a película de Coppola conquistasse o coração de vosso escritor, que além disso, explicará o porque pensa que este filme é uma grande obra, quais as tecnologias utilizadas, o porque um filme de quatro décadas como este ainda é incrível atualmente, entre outros.

I love the smell of napalm in the morning – Tenente Kilgore.

Ford Coppola havia ganhado o mundo com o Poderoso Chefão I e II e A conversação, mas ainda não era o suficiente. Baseado no livro Heart of Darkness, de Joseph Conrad, papai de Sofia Coppola havia aceitado a ideia de levar o projeto à frente no lugar de George Lucas, que se ocupara com Star Wars, e para isso, havia pensado em um projeto enorme, ambicioso e realista, porém, ainda assim, contava com empecilhos já na pré-produção.


O filme, apesar de se passar no Vietnã, foi planejado para ser filmado nas Filipinas, local idêntico geograficamente e onde estava ocorrendo uma guerra civil na época, a menos de 40 quilômetros dali. Além disso, Coppola foi desacreditado por produtores de cinema e colaboradores, que diziam que o filme nunca aconteceria, além de não o ajudarem com um só centavo. Sim, meus amigos, nosso querido diretor teve que se virar nos trinta para levantar o dinheiro para gravar sua película. Com um orçamento de cerca de 31 milhões de Trumps, o valor era considerado baixo para uma superprodução mesmo para época, ainda que saísse do bolso de basicamente uma pessoa só.


Pois bem, em 1976, quando a produção começou, as coisas devem ter melhorado, certo? Muito pelo contrário. Para o papel do protagonista, o capitão Willard, foi feito um teste com o ator Harvey Keitel (Taxi Driver, Cães de Aluguel), cujo desempenho não satisfez Coppola, o que fez com que Martin Sheen (pai do Charlie Sheen) o substituísse.


O ator tinha 37 anos na época, um bom condicionamento físico, mas fumava cerca de dois maços de cigarro por dia, o que eventualmente fez com que ele tivesse um ataque cardíaco durante as gravações do filme e quase morresse, não fosse pelo fato de que andou até um pronto-socorro local e foi salvo.Não havia apenas cigarros nas gravações. Maior parte dos atores estava viciado em drogas e muitas vezes gravaram as cenas chapados e até mesmo bêbados, como Martin Sheen na cena de início da película, a qual menciono mais abaixo.


Coppola também teve que chegar em um acordo com o ditador das filipinas para conseguir os helicópteros de guerra para o filme, veículos esses cuja chegada atrasou e que fizeram o bolso do nosso querido diretor pesar mais ainda. Fora que ele ainda fazia demasiadas alterações no roteiro, apesar de muitas cenas terem sido improvisadas, como o soco no espelho que Charlie Sheen deu enquanto estava alcoolizado, naquela famosa cena do capitão Wilard em um momento de agonia em seu quarto.

O ator Laurence Fishburne, que interpreta o soldado Tyler Miller de 17 anos, tinha apenas 14 na época e havia mentido a idade. Pense na dor de cabeça e nos problemas que poderiam ser causados por causa de um ator menor de idade nas Filipinas, em um local próximo a uma batalha real com armas de fogo.


Marlon Brando também foi escolhido pelo diretor, graças ao seu brilhante desempenho em O Poderoso Chefão. Porém, o homem só deu problemas ao Coppola. Primeiro que o ator só aceitou gravar com a condição de que receberia 3 milhões de dólares em 3 semanas, depois disso ia embora. Brando chegou à Francis com a cabeça raspada e obeso, além de pouco aparecer nas gravações, mais precisamente na última semana, se recusar a seguir seu roteiro por achar que deveria interpretar o personagem à sua maneira, sendo que o diretor o mandou ler o livro o qual este passou longe, lendo menos da metade na última semana. Então, Copolla começou a filmar tudo o que podia antes que seu contrato vencesse e antes que outra desgraça acontecesse. Duvida?


As avarias não foram meramente humanas, pois ocorreu um tufão no local da gravação cujo prejuízo material ocasionado fora enorme, além de ter ceifado a vida de mais de 200 pessoas. Além da natureza não estar ajudando muito o nosso gênio, os tabloides da época diziam que Copolla estava enlouquecendo, que seu projeto seria um fracasso, zombando o título do filme, que saía nas colunas como “Apocalypse When” e “Apocalypse Never". O diretor possui transtorno bipolar, o que só nos faz imaginar como estava a mente dele durante esse período de mais de um ano de gravação. O homem até cogitou suicídio, tamanha era a pressão popular, os dólares a mais gastos, os meses a mais adiados de gravação, a edição de 240 horas de filmagem para um filme que deveria ter 2 horas e meia, os desastres naturais e as guerras ocorrendo no, entre aspas, estúdio de filmagem.


Mas como diria o falecido vocalista da banda Charlie Brown Jr, Chorão, dias de luta, dias de gloria. Depois de todos estes empecilhos com a gravação, Copolla ganhou a palma de ouro em 1979, um Oscar de melhor fotografia e outro de melhor som, três Globos de Ouro, incluindo um de melhor ator coadjuvante ao Robert Duvall, melhor diretor e melhor roteiro original, dois BAFTA awards em melhor direção e melhor ator coadjuvante ao mesmo ator e o Prêmio David di Donatello na Itália na categoria melhor longa estrangeiro. Não bastasse essa enxurrada de premiações, o filme, desde sua estréia é aclamado pela crítica especializada e pelo público, sendo até mesmo considerado por muitos o melhor filme de guerra já feito. E não é para menos.


Uma curiosidade: Apocalypse Now é o longa-metragem com mais erros na história. Segundo o site Movie Mistakes, a película tem por volta de 561 erros, entre eles, reflexos do camera-man atrás dos soldados, helicópteros desaparecendo, música tocando no avião sem a fita estar rodando, entre outros. Mas então, como um filme com tantos erros ainda consegue ser tão relevante?

Todos sabemos que Apocalypse Now gira em torno do capitão Willard, interpretado por Martin Sheen, que, depois de uma ressaca alcoólica e moral no início do filme, é recrutado informalmente por sua antiga equipe em busca de um coronel maluco, Kurtz, interpretado por Marlon Brando, que, além de ter arquitetado muita matança, recrutou alguns nativos do Vietnã para seu próprio exército, onde o mesmo o ovaciona como um deus sem nem saber de seu passado. Durante este passeio em direção ao líder doentio, Willard e sua tropa presenciam muita insanidade, tanto alheia como a deles próprios, principalmente por parte do capitão, que fica mais sádico à medida que o filme avança.


Em primeiro lugar, parafraseando o próprio diretor da obra, “Apocalypse Now não é sobre o Vietnã, ele é o Vietnã”. Pois é, o filme é tão real, tão genuíno e tão convincente que o embrulho no estômago que o espectador sente é como se ele na verdade assistisse uma guerra de verdade ser filmada. Não há tantas cenas de explosão e tiroteio como em outras películas do gênero, porém cada cena é absolutamente visceral, chocante e chega a machucar, como na cena em que o soldado Miller, de dezessete anos morre baleado enquanto uma mensagem de sua mãe, esperançosa por sua volta, toca ao fundo e nas explosões nas florestas e pontes feitas sem nenhuma CGI, o que faz o filme parecer ainda mais real e envelhecer melhor ainda, já que não há efeitos especiais toscos e sim uma mata sendo queimada de verdade.


Em segundo lugar, explana da forma mais crua possível a maldade e o descaso do exército americano para com os povos que eles achavam inferiores a eles. Esse era justamente o motivo pelo qual eu não gostei tanto de Apocalypse Now, justamente por achar as motivações das batalhas muito idiotas. Porém, depois de um tempo, percebi que na verdade isso é um baita tapa na cara do pelotão dos EUA, que explodia praias inteiras e matava pessoas inocentes só para que seus capitães e soldados pudessem surfar. O plano de câmera, com uma enxurrada de napalm detonando um modesto vilarejo ao fundo e o tenente Kilgore, que não tem esse nome por acaso, usando argumentos como “Charlie don't surf", que em uma tradução livre significa algo como “Vietnamitas não surfam", como desculpa para usar uma praia, cujos vietcongues praticamente não usam, para momento recreativo de sua equipe.


Em terceiro lugar, uma mistura do que foi dito no parágrafo anterior com uma das cenas também mencionadas antes, para ser mais exato, a negligência com os soldados de menos de dezoito anos. Já pararam para pensar que os motivos pelo qual morreu o pobre Miller, um ano antes de atingir a maioridade, foram puro desejo de vingança, visto que este acompanhara o capitão Willard em sua missão de matar o cruel chefe de uma tribo e estava presente durante um massacre no Vietnã motivado por uma vontade do capitão pegar algumas ondas? Quer dizer que os desejos egoístas de líderes do exército, além de povos que não fizeram nada a eles, custam também a vida de um adolescente repleto de sonhos e aspirações? Outro soco no estômago dado com sucesso por este filme.


Em quarto lugar, é outro motivo que me fez gostar menos da obra do titio Coppola e pelo qual gerou um dos maiores plot twists da minha história cinéfila: O filme, mesmo com duas horas e meia, é longo e lento demais. Depois de um tempo, vi a versão Redux, que, ironicamente me fez passar a adorar o filme e então percebi que faz total sentido o filme ser tão verborrágico e que cada cena, mesmo com os 50 minutos a mais de filmagem da versão Redux, é importante e simbólica.


Por exemplo, uma cena adicionada foi uma que o próprio Coppola participa, fazendo o papel de um jornalista que estava filmando todo o desastre acontecer, enquanto dizia: “somos só a imprensa, não olhem para a câmera", exemplificando todo o sensacionalismo sempre presente na mídia, que a qualquer custo, inclusive de uma guerra acontecendo diante dos olhos do jornalista, eles exploram o que podem da maneira mais cruel possível para aumentar o ibope.

As cenas com as coelhinhas da playboy por si só já mostram o quão machistas e desesperados os soldados eram por sexo, já que em um ambiente composto majoritariamente por homens, os mesmos despertam seus instintos mais selvagens ao perceberem que podem finalmente satisfazerem suas necessidades sexuais e não se preocupar com mais nada além de matar. Pois bem, as cenas acrescidas se baseiam em uma chuva torrencial em meio a helicópteros parados ao chão que serviam de motel aos soldados, onde rolam alguns desabafos de uma das garotas, friamente ignorada por um membro do exército absolutamente tarado.


E porque isso não pode ser outro tapa na cara? Pois é, uma das premissas básicas que um ser humano vazio e sem ambição se preocupam é o sexo, ao lado de comer, representada na cena adicional do banquete com aristocratas franceses onde Wilard esteve e em um churrasco no vilarejo que o exército de Kilgore destruiu, e preservar a vida, como mostrada na cena onde Wilard e o soldado Chef fogem desesperadamente de um tigre furioso. Apocalypse não é apenas uma aula de guerra como também de naturalismo e da mente humana flertando com a insanidade de forma quase animalesca.


Em quinto lugar, a maravilhosa trilha sonora, regada de rock do fim dos anos 60, de bandas como Creedence, Rolling Stones e Doors, como na entrada e saída do filme, que tocam The End, do The Doors, representando um ciclo, onde o fim volta ao começo no fim das contas, mostrando que quem permaneceu vivo na historia não melhorou como humano, mas piorou e toda a decadência, etílica e moral, representada por Wilard em seu quarto nu e socando o espelho, volta a acontecer. A beleza em meio ao caos também é representada através da música, vide a cena onde a infantaria explode a pobre vila vietnamita com uma linda melodia de Wagner ao fundo.


Chega a ser maldoso ver beleza em uma desgraça recheada de fogo e napalm só porque toca música clássica ao fundo, mas o diretor pode estar querendo mostrar que quem está atrás da tela consegue ser tão sádico e fazer tanta vista grossa como os homens de farda do filme ao enxergar o belo onde acontece algo terrível. O silêncio também é muito bem utilizado no final do filme, no momento em que Wilard chega ao templo onde o coronel insano está. Juntamente com planos de câmera subjetivos, uma das cenas é composta por um exército de nativos ao centro, corpos enforcados, mutilados, nus e mortos nas extremidades da tela de brinde e barulho nenhum, só para fazer o espectador ficar tenso sobre o que pode acontecer em seguida.


Em sexto lugar, a fotografia deste filme é maravilhosa. Vittoro Storaro acertou a mão na tonalidade amarelada e tropical, que ao mesmo tempo dá um ar estourado, de que algo está explodindo ou pegando fogo, sem contar as cenas antológicas que entraram pra história, como é o caso da cena em que o personagem a quem Martin Sheen deu vida emergindo de um rio lentamente, com uma pintura de guerra, ou até mesmo a maquiada na adiposidade de Marlon Brando, com somente sua cabeça aparecendo em um fundo preto, dando também um ar soturno, o que catalisa toda sua crueldade.


Bem, acredito que tenha dado motivos de sobra pelos quais este filme é sensacional. Com uma premissa que a princípio parece algo como um search-and-destroy de vingança, é uma viagem sinuosa a mente humana e todas as maldades que nós somos capazes de fazer. Apocalypse Now é um marco no cinema, mas também é um marco no visual cinematográfico concatenado com filosofia naturalista e niilista. Em meio ao caos, nasceu uma obra prima, que por um acaso trata-se de caos.

Pouquíssimos longas em seu tempo eram tão ousados para explanar tantos podres sobre os conflitos armados em pleno auge da guerra fria, onde as potências mundiais da época, União Soviética e Estados Unidos, faziam ocorrer guerras e ditaduras em países emergentes e subdesenvolvidos. Tudo isso estivera em baixo do tapete, até Apocalypse Now chegar e atacar seu público em salas de cinema com bombas e napalm de denúncias sociais e históricas.


Se você não gostou muito do filme, assim como eu na primeira assistida, reveja, nem que seja daqui a alguns anos, pois quando você abrir seus olhos para este filme, o mesmo os abrirá mais ainda.


Escrito por André Germano

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